Mães de desaparecidos em favelas clamam por retorno

Culto pelo Dia da Criança Desaparecida nas Comunidades foi marcado por emoção

Por adriano.araujo

Rio - Aproximadamente 20 moradores de favelas cariocas desaparecem diariamente. O número não faz parte de nenhuma pesquisa oficial, mas foi apontado neste domingo pelo pastor Fabiano Moura, durante o 1º Dia Internacional da Criança Desaparecida nas Comunidades do Rio de Janeiro, no Chapéu Mangueira.

A descrença na polícia, a certeza da impunidade ou medo de represálias de traficantes estão entre algumas das possíveis causas para que as famílias não registrem os desaparecimentos, o que segundo Fabiano dificulta o levantamento dos dados. “Ainda existe muito medo, muitas vezes os pais me procuram para ajudá-los nas buscas, mas não vão à polícia. Temos 18 desaparecidos na Babilônia e Chapéu Mangueira”, diz o pastor que trabalha com dependentes químicos e suas famílias nas duas comunidades.

O encontro organizado pelo site meufilhosumiu.com, contou com a presença de mães de todos os cantos do estado. Elas participaram de um culto evangélico e lembraram de seus filhos. Maria da Penha do Nascimento Moreira, de 63 anos levou um cartaz com fotos da filha e mensagens que escreveu para Maria Cristina, desaparecida há 19 anos. “Filha querida, nem mesmo a distância tira você da minha mente e do meu coração… Jamais uma mãe esquece um filho, querida jamais vou esquecer você”, escreveu em um trecho. No momento em que terminou de colocar as mensagens, Maria da Penha leu e caiu aos prantos, sendo amparada pela família.

Mães se emocionaram durante o encontro realizado no morro do LemeAlessandro Costa / Agência O Dia

“Minha filha desapareceu em 1995, em Belford Roxo. Tinha 14 anos e foi levada para São Paulo para ser prostituta. Quando soube, fui correndo pra lá, mas os bandidos conseguiram fugir com ela e mais duas garotas”, lamentava. Mesmo com a dor pela falta da filha, Maria da Penha resolveu catalisar sua dor e lutar para ajudar outras mulheres na mesma situação. “Virei missionária da Assembléia de Deus e ajudo outras mães com palavras de apoio, cestas básicas e móveis. Continuo procurando minha filha, tenho fé! A fé é o que me faz continuar andando, senão eu já teria morrido.” Ela também descobriu-se poetisa e ganhou o 7º Concurso de Poesia Carlos Drummond de Andrade, escrevendo sobre a dor de não ter um ente querido por perto. “Nós temos que continuar, não podemos desistir, temos que falar, que gritar pra esses governos nos ouvirem.”

Elizabete Menezes, moradora da Favela Beira Mar, em Duque de Caxias, sabe bem o que é gritar clamando pela volta de Caroline. Em 2003, quando tinha oito anos, Carol costumava passar os fins de semana na casa da tia, em Campo Grande. No dia 13 de abril ela andava de bicicleta em um condomínio fechado sob o olhar da tia, que entrou para beber água, quando voltou a menina tinha sumido.

Seus pais mobilizaram amigos e familiares em busca de Carol, colocaram outdoors e anúncios pelo estado inteiro. “Conseguimos até um ônibus e aos fins de semana enchíamos ele de gente e íamos em cada pedaço de Campo Grande e do Rio. Recebemos denúncias, mas nunca conseguímos encontrar minha filha que está uma moça, ela tem agora 19 anos.” Elizabete chora ao pensar em como e aonde a filha está neste momento. “É desesperador.”

Site criado por empresários

O site meufilhosumiu.com foi criado pelos empresários Arnaldo Gesuele e Bruno Nunes, que após ajudarem em diversos projetos sociais em favelas perceberam altos índices de desaparecimentos. “Nossa ideia é que qualquer tela que tenha acesso a internet possa ser usada na busca de pessoas desaparecidas”, diz Arnaldo.

“É importante que a ação seja rápida porque as crianças sequestradas já tem destino certo”, complementa Bruno. As mães devem fazer um boletim de ocorrência imediatamente e logo após cadastrar foto e os dados da criança para que o site possa emitir o alerta para as redes sociais. “É importante também que os pais tirem sempre fotos de seus filhos, pois podem ser necessárias para cartazes. Volta e meia pegamos pais com fotos antigas e de baixa qualidade que dificultam a localização.”

Dicas de segurança para os pais

1 - Nos passeios não descuide das crianças;

2 - Procure conversar todos os dias com os filhos, observar a roupa que vestem e se apresentam comportamento diferente;

3 - Procure conhecer todos os amigos do seu filho, onde moram e com quem moram;

4 - Os Acompanhe escola, na ida e na volta, e avise a direreção sobre quem pode retirar a criança;

5 - Coloque bilhetes e cartões de identificação com nome e telefones;

6 - Não deixe as crianças com pessoas desconhecidas;

7 - Faça o mais cedo o possível a carteira de identidade do menor;

8 - Oriente as crianças a não se afastarem;

- Ensine a sempre que estiverem em dificuldade a procurar uma viatura policial, ou um policial fardado (PM ou Guarda Municipal), e pedir ajuda;

10 - Evite lugares com aglomeração de pessoas;

12- Perdendo a criança de vista, avise a polícia.

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