A mesa e a intenção de voto

O impacto dos efeitos climáticos nos preços dos alimentos in natura só deverá “começara ser dissipado a partir de junho”

Por O Dia

Em entrevista ao Brasil Econômico na primeira semana de janeiro, o presidente do Ibope, Carlos Augusto Montenegro, apontou o favoritismo da presidente Dilma Rousseff nas eleições deste ano, mas ressalvou que era cedo para cantar vitória. Do alto de sua experiência em pesquisas de opinião, ele advertiu que muita água ainda iria passar por baixo da ponte até a ida às urnas no domingo 5 de outubro. Um fator fundamental ao longo da campanha, em sua análise, seria e será o desempenho da economia. Não por questões mais sofisticadas como a relação dívida/PIB e os gargalos da indústria de transformação, mas, sim, por eventuais dificuldades na gestão do orçamento doméstico e nas despesas do dia-a-dia. Se a inflação subir e pesar no bolso dos consumidores, então haverá repercussão líquida e certa no resultado das eleições, previu Montenegro.

De lá para cá, a conjuntura mudou. Na linguagem do Banco Central, a inflação tem se mostrado resiliente, sem ceder aos golpes de taxas de juros. No curto e no médio prazo, a política monetária mais conservadora não faz efeito sobre o aumento do preço dos alimentos, que foi provocado pela longa estiagem de janeiro e fevereiro. Ontem mesmo, o BC, ao divulgar o relatório trimestral da inflação, pintou um cenário com tintas mais fortes do que o habitual. A equipe de Alexandre Tombini elevou a previsão de inflação anual de 5,6% para 6,1%.

Já o crescimento do PIB foi revisto para baixo. Será de apenas 2%, contra os 2,3% do ano passado e a estimativa mais otimista da Fazenda, de 2,5%. Perguntado sobre a persistência da alta dos preços, o diretor de Política Econômica, Carlos Hamilton, responsabilizou os gastos públicos. "A gente sempre trabalha com o foco de manter a inflação na meta. Mas a gente trabalha com estímulos que não estão na mão do Banco Central", argumentou.

Na previsão do diretor do BC, o impacto dos efeitos climáticos nos preços de produtos in natura só deverá "começar a ser dissipado a partir de junho". Ou seja, pelo menos até a Copa do Mundo as compras nos supermercados e nas feiras vão continuar a pesar no bolso e na mesa das famílias. Esse é exatamente o fator que pode ter efeito negativo sobre a ampla vantagem de Dilma sobre seus adversários. Também ontem, o que era apenas uma hipótese aventada por Montenegro tornou-se realidade na pesquisa do Ibope sobre a imagem do governo Dilma, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria.

De acordo com o levantamento, o percentual da população que avalia o governo como ótimo ou bom caiu de 43% para 36%. A aprovação da maneira de governar de Dilma caiu de 56% para 51% no mesmo período. E a parcela da população que confia na presidente caiu de 52% para 48%, embora no limite da margem de erro.

A avaliação do governo piorou em todas as pesquisadas pelo Ibope. E, na interpretação do gerente-executivo da CNI, Renato da Fonseca, que divulgou a pesquisa, a maior razão do desgaste está na alta dos alimentos e nas preocupações dos eleitores com a inflação e a possibilidade de desemprego - não hoje mas no futuro.

Em resumo, a batata do governo Dilma está assando por causa da política econômica. O que não é exatamente um bom presente para Guido Mantega, que acaba de se tornar o ministro da Fazenda mais longevo do País em tempos de democracia. A comemoração merecia melhores notícias.

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