General afirma que não havia opção de prender no Araguaia

Para Comissão da Verdade, declaração indica que ordem era matar guerrilheiros

Por O Dia

Brasília - A Comissão Nacional da Verdade (CNV) divulgou ontem parte de um depoimento do general reformado do Exército Nilton Cerqueira em que ele deixaria claro que nunca houve intensão de prender militantes que participaram da Guerrilha do Araguaia, de 1972 a 1975. “Prender não era opção”, afirma Cerqueira, o que, para membros da Comissão indica que a ordem era assassinar os guerrilheiros.

A declaração foi dada em novembro de 2013, quando o general depôs ao conselho, ao responder uma pergunta direta se havia ordem específica no Exército para eliminar os guerrilheiros. “Prender você não põe como opção. […]Se a ameaça vem do bandido que está lá recebendo ordens de São Paulo, ele vai morrer. Se ele não atirar, ele morre”, disse o general.

A Guerrilha do Araguaia foi um movimento armado contra a ditadura militar. Organizado pelo PCdoB, ela ocupou, de […]1972 e 1975, parte do sul do Pará e da região onde hoje fica Tocantins[/…]. A guerrilha foi reprimida e dizimada por tropas do Exército.

No vídeo com seu depoimento, que foi exibido na sessão de ontem da Comissão Nacional da Verdade, o general Cerqueira diz, entre outros coisas, que quem ia para o conflito no Araguaia ia para morrer ou matar. “O cara preparado para a luta tem a convicção que está com a razão. Ele está disposto a morrer. E quem enfrenta o combate está com disposição de morrer ou matar. O que você acha? Morre ou mata?”, disse o general, que em julho foi convocado mais uma vez pela comissão, mas ficou calado durante o depoimento.

Na época da Guerrilha do Araguaia, dezenas de camponeses e militantes do PCdoB foram torturados e desapareceram. Segundo a CNV, 10 mil militares foram deslocados para a região.

Exibição tinha cenas de cadáveres

Ontem, vítimas da Guerrilha do Araguaia e parentes de vítimas prestaram depoimentos à comissão. Criméia Schmidt de Almeida, que saiu do Sul do Pará em 1972, contou que foi presa em São Paulo e levada grávida para Brasília, onde passou por várias sessões de tortura.

A ex-guerrilheira afirmou ter sido submetida ao que os militares chamavam de “sala de cinema”. Eram sessões em que eram exibidas aos presos imagens de corpos de perseguidos políticos. “Eram militantes com a cabeça cortada. Eram cenas das cabeças cortadas que me eram mostradas todos os dias. E acho que eram as mesmas. E ficavam mostrando, mostrando, mostrando. Ficava um projetando os slides e outro observando a minha reação”, disse.

O também ex-guerrilheiro Danilo Carneiro afirmou ter sido um dos primeiros presos na Guerrilha do Araguaia. Ele informou ter sido levado para a Casa Azul, após passar 15 dias atuando com camponeses.
Carneiro relatou ter sido perseguido por anos pela polícia e, preso, foi constantemente torturado. Ele passou à comissão uma lista de 16 nomes de supostos torturadores.

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