Enraizados em Brás de Pina há uma década, congoleses têm espécie de QG no bairro

Eles se apoiam para superar dificuldades, como a busca por emprego. A associação congolesa estima que metade dos 3,2 mil no país estão no Rio

Por O Dia

Rio - Há seis anos, a congolesa Nathalie Kalonji desceu do ônibus na Rua Ourique, em Brás de Pina, só com a roupa do corpo. Ela tinha escapado da morte no seu país de origem ao fugir depois de presenciar a execução dos tios, que serviam ao Exército. Nathalie chegou a ficar horas parada no aeroporto, em São Paulo, sem falar uma palavra. Lá, um sujeito se comunicou em francês, um dos idiomas falados no Congo, para dar o endereço onde ela teria algum tipo de orientação.

Encontrar Fernando Mupapa, dono de um salão de beleza na Zona Norte do Rio conhecido por ajudar refugiados vindos de áreas em conflito no continente africano, era o fim da linha de uma história familiar trágica. E um novo começo longe do seu país e da sua cultura. Hoje, Nathalie e Fernando estão casados e são pais de três filhos brasileiros. Em casa, ela cuida dos filhos sem esquecer as suas origens. Com roupas típicas africanas, ela mostra aos filhos as músicas do seu país no laptop.

A congolesa Nathalie%2C com os três filhos nascidos no Brasil%2C mora em Brás de Pina%2C após fugir de seu paísJoão Laet / Agência O Dia

Um tipo de história que se tornou comum em Brás de Pina, onde a comunidade congolesa se enraizou há uma década. É o caso de Abel Silu, que lutava pela resistência e chegou a ser preso. Fugiu dos conflitos com o filho no colo. No Brasil, casou com uma congolesa e teve outros dois filhos. Até agosto, o Ministério da Justiça tinha o registro de 688 refugiados reconhecidos vindos do Congo, atrás de sírios, colombianos e angolanos. Mas a associação de congoleses no país presidida por Mupapa estima uma população de 3,2 mil pessoas em território brasileiro.

A metade delas está no Rio. Fora da capital, eles estão espalhados em Niterói e Duque de Caxias. No Rio, também moram na Central do Brasil, em Madureira, Irajá e Cordovil. Mas a maior concentração está mesmo em Brás de Pina, que virou uma espécie de QG do Congo no país, sediando até cultos de religiões do país.

Associação fez atos no Brasil para alertar sobre conflitos no CongoJoão Laet / Agência O Dia

Em frente ao salão de beleza de Fernando Mupapa, os idiomas mais falados são francês e lingala, um dos principais dialetos do país africano. Lá, congoleses aparecem a todo momento. Alguns só cumprimentam aqueles que estão lá, a caminho do trabalho. Até numa simples refeição, no fim da tarde, é possível observar a diferença cultural. Um grupo de congoleses coloca pedaços de abacate no meio do pão. “Experimenta! É delicioso”, oferece um deles.

A união faz parte das ações da associação, que tenta se legalizar há 15 anos e banca até mesmo o enterro de congoleses mortos no país. No fim de junho, a entidade organizou uma festa africana, com músicas e comidas típicas. Mas a principal luta é por melhorias e emprego. “Os negros brasileiros já têm dificuldade para viver e conseguir emprego no Brasil. Imagina os estrangeiros? Quando tem aquele rótulo de ‘refugiado’, é ainda pior”, observa Mupapa.

Pão com abacate%2C iguaria africana%2C é comum em Brás de PinaJoão Laet / Agência O Dia

Luta para esquecer os traumas

Em meio à busca por dias melhores, os congoleses tentam esquecer o trauma dos episódios em meio aos conflitos. Casos de crianças mortas, mulheres mutiladas e chacinas fazem parte das histórias contadas pelos refugiados no Brasil.

O professor de artes marciais Philippe Mbudi Mavungu foi preso e torturado porque a polícia encontrou seis mercenários treinando na sua academia. Há cinco meses em Brás de Pina, onde divide uma casa com outro congolês, ele tenta aprender português para exercer a sua profissão. “Só quero poder trabalhar”, diz, em francês. 

Uma etapa superada por Charly Kongo, que mora há seis anos no país e trabalha em um hotel como mensageiro. Casado com uma brasileira, ele fala português fluentemente e ajuda os outros congoleses como voluntário em aulas da língua na ONG Cáritas, que presta assistência a refugiados no Rio de Janeiro.

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