Nelson Vasconcelos: Ele está entre nós

Se Hitler retornasse das profundezas do inferno faria muito sucesso, pois a verdade é que existe ambiente propício a novos tiranos (com antigos ideais)

Por O Dia

Rio - Circula pela internet uma montagem sobrepondo uma foto do Adolf Hitler a uma do deputado Jair Bolsonaro. É uma brincadeira séria, que me lembra o filme ‘Ele está de volta’, de David Wnendt. Parte de uma proposta curiosa: o que aconteceria se, de repente, Hitler retornasse das profundezas do inferno e saísse perambulando pela Alemanha de hoje? Seria repudiado? Preso? Não, pior que não. Faria muito sucesso, pois a verdade é que existe ambiente propício a novos tiranos (com antigos ideais). Será que não?

Então vamos ao filme, baseado no ótimo livro de Timur Vermes. Depois “acordar” num parque público em 2014, o Fürher (o líder) é descoberto por um repórter que o leva a circular pelo país. Trocando ideia com o povo, percebe crise de valores, falta de representatividade política, corrupção, problemas para todos os lados. A xenofobia está em alta.

Como continua bom de conversa, rapidamente Hitler se torna um fenômeno nas redes sociais, na TV, nos jornais. Nas ruas, jovens e velhos param para fazer selfies com ele, e o céu é o limite.

Eis, então, um prato cheio para o bom humor alemão, ácido, crítico, sincero. Hitler é inicialmente considerado um comediante, daqueles que falam a verdade provocando gargalhadas. Mas logo consegue seguidores da direita mais idiota. E ele mesmo se decepciona com a qualidade do seu eleitorado...

E a mensagem é esta. A gente começa rindo de um pateta tagarela, acha suas fanfarronices inocentes, depois passa a acreditar na sua palavra e considera suas propostas pertinentes, sinceras, enriquecedoras. E o sujeito não passa, na verdade, de um lunático. E o pior: um lunático com poder.

Eis aí o problema. Por trás do riso fácil, esconde-se um discurso de ódio que preserva apenas uma parcela pequena da sociedade. Quem encarnar o papel de líder facilmente manipula o povo, esse “bom material de trabalho”. E quem tentar desmascará-lo será trancafiado como louco.

Esse enredo não cabe apenas na Alemanha. Toda a Europa está nesse caminho e, veja só, também por aqui temos dado muito cartaz ao discurso nazifascista de uns e outros. Que, justamente por serem nazifascistas idiotas, temos que manter distantes. Alguém aí pensou em Jair Bolsonaro?

Nelson Vasconcelos é jornalista

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