Por marta.valim

O tempo em que a tecnologia nas escolas brasileiras estava restrita aos poucos e muitas vezes precários laboratórios de informática parece estar com os dias contados. Novos recursos digitais começam a ser adotados em colégios de todo o país e já fazem companhia aos velhos quadros negros nas salas de aula. De olho nesse ganho de escala, uma ampla gama de fornecedores já se movimenta para capturar as demandas do setor.

O arsenal de novas tecnologias inclui desde lousas interativas, tablets e conteúdos digitais até a infraestrutura para apoiar essas aplicações. A demanda vem sendo gerada tanto nos setores público como privado, obedecendo a dinâmicas e contextos diferenciados de adoção. “No último ano, houve um forte investimento das secretarias estaduais e municipais para construir uma infraestrutura de rede”, diz Ricardo Santos diretor de educação da Cisco. “Já no setor privado, que investe há mais tempo, há uma segunda onda para atualizar essa infraestrutura. E, ao mesmo tempo, os colégios de menor porte que adotam sistemas de ensino de grandes redes também estão seguindo essa direção”, afirma. Em todas essas frentes, diz o executivo, a ideia é preparar os colégios para novas soluções, como por exemplo, as ferramentas de colaboração entre alunos e professores.

Com um portfólio que envolve, entre outros recursos, equipamentos de rede e soluções de comunicação e colaboração, a divisão de educação da Cisco tem hoje 70% de seus projetos no setor público. Com a onda de fusões no setor privado, no entanto, a expectativa é que essa relação seja mais equilibrada em médio prazo. “De 2011 a 2014, o volume de negócios da divisão cresceu 11 vezes no país”, diz.

A evolução dos projetos é uma das apostas da Microsoft. Com uma base instalada de sistemas de gestão no setor, a empresa está buscando ampliar sua presença nas instituições com novas soluções, mais voltadas ao uso da tecnologia na ponta. O leque inclui o Office 365 — versão na nuvem do conhecido pacote de sistemas da Microsoft. A plataforma permite compartilhar conteúdos — tarefas, trabalhos — em tempo real e traz ferramentas como uma rede social .

Para ganhar escala, a estratégia passa por ofertas promocionais. Um dos exemplos foi a parceria com a Secretaria Estadual de Educação de São Paulo. A Microsoft ofereceu acesso gratuito ao Office 365 para 4,3 milhões de estudantes da rede estadual, em até cinco dispositivos por usuário. “Considerando colégios públicos e particulares, em 2013, tivemos um crescimento de 50% nas pequenas e médias escolas e de 25% nas grandes redes”, diz Antonio Moraes, diretor de educação da Microsoft no Brasil.

Apoiada por uma rede social para educadores e por aplicações que ajudam os docentes a criar aulas interativas, a empresa também trabalha com treinamentos para que os profissionais consigam se adaptar às novas tecnologias. “Hoje, o estudante é bombardeado por diversos canais de informação. Nesse contexto, o educador tem que ser um curador e facilitador do processo”.

A adaptação dos professores é também um dos focos da Sapienti. A empresa mantém uma parceria com a Fast Shop Educacional — divisão de educação da varejista — para a oferta de consultoria aos docentes. O principal negócio, porém, são as lousas digitais, de fabricação própria. Com 102 polegadas e um projetor de alta definição, a solução conta ainda com uma câmera de documentos, que permite capturar e compartilhar — em tempo real — qualquer documento, em diferentes formatos. É possível, por exemplo, transferir o conteúdo disponível no tablet de um determinado aluno para a lousa em questão. “Hoje, nossa maior atuação está na área pública, onde temos projetos em cerca de 100 municípios”, diz Ronaldo Carvalho, diretor da Sapienti.

Outro componente tem favorecido os investimentos do setor. “Hoje, os tablets estão mais baratos e, ao mesmo tempo, mais potentes para suportar aplicações como animações e gráficos. Isso tem permitido que o governo também participe dessa evolução”, diz Felipe Rezende, fundador e diretor-executivo da EvoBooks. Como um exemplo, ele cita o investimento realizado em 2013 pelo governo federal, que adquiriu 600 mil tablets para distribuir aos professores do ensino médio. “Esse mesmo movimento está acontecendo — e na ponta dos alunos — em diversos estados e municípios”, observa.

Criada em 2011, a EvoBooks desenvolve livros-aplicativos, que trazem, entre outros elementos, simulações em 3D de diversas disciplinas. O aluno consegue, por exemplo, interagir com a tela do tablet e entender — na prática — o que acontece com um átomo em uma reação química. Apesar de ressaltar o ciclo mais demorado de venda para o setor público — em média de no mínimo 6 meses, ante no máximo 3 meses nos colégios particulares —, Rezende diz que o segmento é hoje um dos destaques em sua base de 1,1 mil escolas no país. Grande parte desses colégios incluem as parcerias fechadas com as secretarias de educação do Amazonas e do Rio de Janeiro.

As boas perspectivas do mercado brasileiro atraíram o interesse da LeYa Educação, de Portugal, que, entre outras frentes, atua na oferta de livros e conteúdos digitais para educação. Além dos livros didáticos em formato eletrônico, o portfólio conta com recursos interativos e funções que permitem aos alunos e professores manipularem esses conteúdos digitalmente. “O ambiente digital amplifica o conteúdo do livro e as possibilidades de absorção do conteúdo”, diz Francisco Deslandes Heitor, diretor da LeYa Educação.

A estratégia da empresa no país passa especialmente pela participação em licitações como os processos relacionados ao Programa Nacional do Livro Didático, do Ministério da Educação. A companhia obteve uma participação de 5% na licitação realizada em 2013 e, nesse ano, está participando com 27 títulos da concorrência para o ensino médio.

Depois de consolidar sua atuação no país, a brasileira P3D levou seus softwares em 3D para mais de 20 países, traduzidos em 13 idiomas. “Da nossa base atual de 4 mil escolas, cerca de 3 mil são do exterior”, afirma Mervyn Lowe, CEO e fundador da companhia.

A empresa oferece softwares com conteúdos e bancos de imagem e de vídeos, entre outros formatos, em 3D, para que os professores possam aprimorar o desenvolvimento e a preparação de suas aulas. Ao mesmo tempo, é possível gravar as aulas e interagir com qualquer conteúdo disponível na apresentação, seja por meio de mouse ou um toque numa lousa digital ou qualquer dispositivo.

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