A trajetória do mito Joãozinho da Gomeia

Livro do jornalista Carlos Nobre conta a história de um dos mais importantes pais de santo do país

Por O Dia

Carlos Nobre discorre sobre as crises do ‘Rei Negro’ e a prisão no Governo VargasErnestto Carriço

Uma viagem fascinante pela trajetória do baiano João Alves Torres Filho, o Joãozinho da Gomeia, pai de santo que construiu sua história superando conflitos políticos e religiosos. E mais: conquistando espaço na alta sociedade do país. Batizado pela imprensa, entre os anos 1940 e 1970, de ‘Rei Negro’ e considerado o ‘maior babalorixá do Brasil’, os passos do mulato abertamente homossexual são reconstruídos pelo olhar apurado do jornalista e escritor Carlos Nobre no livro ‘Gomeia João — A arte de tecer o invisível’, do Centro Portal Cultural.

Entre Salvador, na Bahia, e principalmente em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, ele atraiu para os seus terreiros ricos e pobres que disputavam a sua bênção. “Ele era do Candomblé de Caboclo, menosprezado dentro do Candomblé Ketu. Sábio, construiu uma linguagem oculta e conseguiu ascensão social dentro da religiosidade africana”, afirmou Carlos Nobre. Ele enfatiza que os presidentes Getulio Vargas e Juscelino Kubitschek, os cantores Dorival Caymmi e Marlene, além de diplomatas franceses, figuraram na lista dos que teriam conhecido o seu terreiro.

Nobre discorre sobre as crises enfrentadas por Joãozinho da Gomeia e sua prisão no Palácio do Catete, em 1942. Ele havia acabado de chegar ao Rio e foi convencido a fazer um trabalho para salvar o governo Vargas. Acabou preso por 30 dias por curandeirismo. Retornou à Bahia e só voltou para Caxias em 1946, onde se eternizou como mito. Até hoje ainda não há um consenso sobre seu sucessor. Segundo Nobre, os búzios escolheram, à época, Sandra Regina Reis dos Santos, uma menina iniciada na religião, mas que tinha só 8 anos, em 1971, quando ele morreu. “Hoje, ela deseja que o terreiro, abandonado em Duque de Caxias, seja transformado em Centro Cultural e espera e o reconhecimento como sua sucessora”, explicou Nobre. O lançamento do livro será em 6 de julho, no Centro Municipal de Artes Calouste Gulbenkian, na Rua Benedito Hipólito, 125, Centro, às 19h, seguido de um coquetel afro. 

Babalorixá atraía multidões a seu centro em Duque de Caxias

Nascido na pequena Inhambupe, a 153 quilômetros de Salvador, Bahia, Joãozinho da Gomeia manifestou sua religiosidade quando ele ainda era uma criança. Tornou-se pai de santo, e encarnava o caboclo Pedra Preta. Em território baiano, ele tinha o escritor Jorge Amado como ogã.

Nos anos 1930, foi o primeiro sacerdote masculino a quebrar a hegemonia das matriarcas do candomblé, religiosas que mais se destacavam na mídia e na louvação popular. Virou moda nas ruas de Salvador dizer “vamos no candomblé do João”, na periferia da cidade.

Desde de Salvador, Joãozinho da Gomeia era midiático. A antropóloga Gisèle Bino Cossard, marroquina e casada com diplomata francês, foi a filha de santo mais badalada. Em respeito às suas origens fidalgas, ele a teria ‘raspado’ de forma insuficiente.

Nos anos de 40, 50 e 60, ele predominou em Caxias, atraindo multidões para seu reduto religioso e usando a magia para resolver problemas dos ricos. Em 19 de março de 1971, quando faleceu, em São Paulo, uma tempestade desabou em Caxias. O corpo saiu da capital paulista e quando chegou em Caxias cinco mil pessoas se aglomeravam para despedida. No cemitério, o caixão foi levado por várias mãos numa corrente de força até a sepultura. 

Nascido na Bahia%2C Gomeia se tornou mito em Duque de CaxiasDivulgação