'Sofri no hospital, mas vou viver o hoje', diz Marco Antônio de Biaggi

Hairstylist é o entrevistado desse domingo e fala de como superou um câncer.

Por O Dia

MARCO ANTÔNIO DE BIAGGI lança amanhã, no Copacabana Palace, o livro ‘A Beleza da Vida’. Na publicação, o hairstylist preferido das celebridades fala sobre os 145 dias que passou internado por conta de um câncer, sendo 45 deles na UTI. Quando acordou, estava com 32 quilos a menos e sem mover as pernas. Hoje, ele se locomove com a ajuda de um andador. O livro relembra também boas histórias envolvendo as mais belas famosas do Brasil. Em um dos capítulos, ele revela os bastidores do dia em que Luciana Gimenez conheceu Mick Jagger. “No dia seguinte ela chegou contando que tinha conhecido o Mick Jagger. Não acreditei e respondi: ‘eu conheci a Madonna!’. Mas era verdade mesmo!”. Leia a entrevista completa a seguir:

BiaggiReprodução Internet

Como surgiu a ideia de lançar o livro?
Foi uma ideia da Alecsandra Zapparoli depois que fui capa da Veja SP. A matéria teve uma repercussão estrondosa, as pessoas se sensibilizaram quando assumi o câncer. Fui literalmente abraçado pelos brasileiros em função da minha história.

O capítulo mais difícil foi o da doença?
Sim. Perder cabelo, cílio, sobrancelha foi muito difícil e impactante. Ainda mais pra mim, que mexo com beleza. Na quimioterapia, tive enjoo e mal-estar, mas não deixei a peteca cair. Tiveram situações em que eu acabava o ciclo da quimio depois de três dias internado e ia direto fazer uma capa da ‘Cosmopolitan’. Me lembro das vertigens que sentia e tentava disfarçar sorrindo. Parecia que estava pisando em nuvens... Eu tinha calafrio. Eu não imaginava o que estava por vir. Quando achava que estava curado, depois de seis protocolos de quimio, sem células cancerígenas, dei entrada no hospital sentindo falta de ar e saí seis meses depois. Foram 45 dias em coma, duas pneumonias, quatro paradas cardíacas, uma delas de nove minutos... Tem coisas que me lembro muto bem: uma dor dilacerante causada por uma ferida que tinha de 13cm de largura e 8cm de profundidade. Dava para ver até o osso! Mas sempre fui muito religioso. Às vezes sentia uma paz muito grande, oriunda da fé que tenho em Nossa Senhora de Fátima e em Jesus.

Você demorou a admitir que estava com câncer. Dizia que estava careca por conta de uma promessa para a saúde do seu pai. Por que o silêncio?
Porque eu tinha medo. Sou humano. Tinha contrato milionário com uma empresa de cosméticos, a Avon. Depois de um ano elesromperam o contrato comigo. Não fizeram antes, descaradamente, porque pegaria mal. Trabalho com beleza e não sabia a reação das clientes, se aceitariam a minha doença. Quando assumi foi libertador, foi como se tirassem uma corda do meu pescoço.

Teve medo de morrer?
De forma alguma! Tenho muita fé, sempre li muitos livros de auto-ajuda e quando estava deitado pensava em coisas boas que me davam prazer: caminhar no calçadão de Copacabana com o sol nas minhas costas, por exemplo. Ir na Avenida Paulista tomar meu café na Livraria Cultura, onde fico por horas aos domingos. Me imaginava na minha casa comendo a comida da minha mãe... Vim de uma origem pobre com uma sede impresionante de ter fama, vontade de dar uma vida melhor aos meus pais e aí quando estou no auge, dono de salão luxuoso, mais de cem funcionários, glamour, dinheiro, capas de revistas... Vem a vida e me dá uma rasteira. Acordei no dia de Natal com um inchaço embaixo do braço e assim começou a luta contra o linfoma.

Que lição você tira do câncer?
Fiquei anos achando que tinha que aproveitar porque estava no auge. Moro num apartamento gigante, cercado pela natureza e nem notava. Vivia na euforia, só pensava em trabalhar, chegava à noite cansado e ia dormir. Perdi o prazer de ficar com a família. Tem uma cena que me lembro muito bem. Estava entubado, sentindo uma sede brutal, queria água e não podia beber. Os enfermeiros molhavam a gaze e colocavam na minha boca. Naquela hora, trocaria todo o meu império por um copo de água. Então vi que tudo o que construí na vida não valia nada. É como se a quimioterapia tivesse me mudado. Hoje em dia eu não quero mais ter algemas de ouro, ter mais empregados. Nunca derrubei uma lágrima durante tudo isso e olha que foi punk! Perdi 37kg. Tenho um bonsai de maçã há 10 anos e os galhos sempre foram verdes. Um dia desses, ele estava inteiro com folhinhas brancas. Chorei. Vi a beleza da vida e dali tirei o nome para o título do meu livro. O Marco Antônio de antes estaria tão estressado, com a agenda tão cheia que não veria isso. Tinha perdido os prazeres da vida.

O livro traz boas histórias. Tem um capítulo só sobre ‘periquitas’. Fala um pouco sobre ele.
Esse capítulo fala das histórias nos bastidores das capas mais icônicas que fiz. Por exemplo, a foto da Galisteu se raspando com uma gilete, para a Playboy, na Grécia. Era um hotel chique e o dono achava que a gente estava fazendo uma ensaio para uma revista de moda. Ficamos em seis quartos luxuosos. Quando ele chegava com algum agrado, Galisteu tinha que correr, se cobrir e a gente fazia cara de paisagem para disfarçar.

Você conta uma história sobre a Leila Lopes. Ela estava fazendo fotos pra Playboy no deserto e cis<mou que queria um cavalo pra compor a foto... Como foi isso?
Foi com a Leila que fiz uma das viagens mais maravilhosas da minha vida. Ficamos no Chateau Marmont Hotel, onde morava Grace Kelly. As fotos eram na Rota 66, um lugar que só tinha cacto e ela quis um cavalo. Ela estava nua, só com uma sandália em cima de um cavalo. De repente, passou um calango em frente, o cavalo saiu em dispara. Encontramos a Leila em cima de um cacto, toda ralada. Tem também uma história da Angélica, que fez uma capa da ‘Nova’, uma coisa mais sexy. Molhamos o vestido dela e coloquei as penas de um cocar no cabelo. Ela ficou tão deslumbrante... Foi inesquecivel. A diretora americana da revista escreveu para a redação do Brasil perguntando quem era aquela modelo de tirar o fôlego. E era Angélica!

É verdade que Luciana Gimenez estava no salão e saiu apressada porque tinha uma festa onde conheceria o Mick Jagger?
Ela era uma modelo que sonhava trabalhar lá fora, me pedia pra eu dar uma força pra ela ser capa da ‘Nova’. Infernizei tanto a diretora que ela a chamou, fizemos as fotos com duas globais, quando vi a Luciana chegar bronzeada, cabelo molhado, peito mara. Falei: ‘Hoje é o dia dela’. Fiz o cabelo com muito amor e ela falava: ‘Vai logo que vai ter uma festa no Rio em que o Mick Jagger vai estar’. Nessa noite ela o conheceu, engatou namoro e ganhou a capa da revista derrubando as duas globais. No dia seguinte, ela disse: ‘Conheci o Mick Jagger’. Não acreditei e disse: ‘Eu conheci a Madonna’.

Você tinha obsessão pela fama?
Era um menino pobre e vi uma capa de revista na banca. Quando vi aquilo, tive um despertar e falei: ‘Quero ser desse mundo!’. Depois de um tempo estava em uma trasnportadora, contando mercadoria, e na hora do almoço vi uma capa com uma modelo chamada Rosana Prada. Falei de novo: ‘Vou fazer parte desse mundo’. Tinha um interesse que ninguém entendia, folheava todas as revistas e queria olhar quem era a equipe. Hoje eu moro com meus pais num apartamento gigante que comprei do ex-jogador Raí. Passava de ônibus e falava que moraria ali um dia.

O lançamento do livro será no Copacabana Palace. A suíte de número 853 era sua. Como é voltar ao Copa recuperado?
Parece que vou ver um bebê nascer, lá é minha casa, sou o rei da piscina. Mesmo andando com limitações pelo excesso de quimio, voltar lá com tantas histórias é incrível.

Como é a sua rotina atualmente?
Mudou muito. Depois do câncer nunca mais fui o mesmo e meus horários mudaram. Vou para a fisioterapia robótica em um lugar onde tem pessoas amputadas, marcadas por histórias de vida que Nossa Senhora! Tenho meus amigos que fiz lá e sinto vergonha de reclamar do que eu tenho perante as histórias de vida deles, muitos estão lá pelos SUS (Sistema Único de Saúde). Agora no lançamento do meu livro, em São Paulo, convidei esses amigos e foi uma festa. Via a alegria estampada no rosto deles e isso valeu a minha noite.

Na sua opinião, qual é o verdadeiro sentido da vida?
Fique alerta para o agora, para o presente. Olhe ao redor. Não se preocupe com o futuro. só cabe a Deus. Não seja escravo de preocupações e não viva do passado. O passado passou. Sofri no hospital, mas isso é passado. Vou viver o hoje.

Sabrina Sato e Marco Antônio Di BiaggiFrancisco Cepeda / Ag. News