'Me senti sob chicote, numa senzala'

Mãe de santo obrigada a quebrar seu terreiro ao ser feita refém por sete homens armados relata com exclusividade ao DIA o terror que passou

Por FRANCISCO ALVES FILHO

Ao chegar, na tarde de terça-feira, 5, ao terreiro cravado no bairro Parque Flora, em Nova Iguaçu, onde desde 2013 tratou de problemas espirituais das pessoas através do Candomblé, a mãe de santo L., 66 anos, foi abordada de forma agressiva. Eram sete homens, com idades de 20 a 30 anos, armados com duas pistolas, taco de beisebol e barra de ferro. "O 'homem' disse que não é para ter mais macumba aqui", informou um deles, referindo-se ao chefe do tráfico. "Nós viemos quebrar seu barracão".

Em seguida, cinco pessoas que a acompanhavam foram colocadas no chão, sob a mira das armas de dois traficantes. Os outros criminosos entraram com ela no terreiro e deram início à depredação que se vê, em parte, no vídeo gravado pelos próprios agressores. As imagens circularam nas redes sociais e chocaram o país.

O terreiro de mãe L. foi um dos oito quebrados nos últimos dois meses no Rio por traficantes que se dizem evangélicos. A ordem teria partido de um dos cabeças de uma das facções criminosas que aterroriza o estado. Ela disse que não os conhecia e nunca recebeu qualquer ameaça anterior, por isso a surpresa foi completa . "Pedi a eles 24 horas para fazer a mudança, mas não adiantou. Foram muito agressivos, me empurravam, mandaram eu quebrar e quebraram tudo que viram pela frente".

Toda a ação foi entremeada por xingamentos. Os criminosos se referiam aos quartos dos Orixás como 'casas de cachorro' e, à mãe de santo, como 'feiticeira' e 'bruxa'. Repetiam que ela deveria doar cestas básicas para a 'obra do Senhor' ao invés de ficar fazendo 'bruxarias'.

Até hoje, a religiosa não conseguiu ver o vídeo gravado pelos traficantes. "Aquilo foi uma segunda agressão que eu sofri", definiu, com os olhos marejados. "Me senti numa senzala, sendo chicoteada e sem ter a quem pedir socorro". As imagens foram feitas no quarto de Omolu, um dos Orixás, local de silêncio e meditação. Para ela, quebrar os símbolos que guardava por 35 anos foi o mesmo que bater na própria mãe, no pai ou no filho.

Depois de completada a depredação, com várias peças religiosas literalmente reduzidas a pó, uma outra cena deplorável. "Assim que os homens subiram numa carroça para ir embora, foram aplaudidos por alguns dos vizinhos, evangélicos", contou mãe L. Houve até quem apertasse a mão dos bandidos, aprovando o ato.

Dias após o ataque, a mãe de santo foi à Secretaria de Segurança pedir providências, mas se sentiu decepcionada. "Foram palavras ao vento, nem perguntaram meu nome". Até agora, não fez registro de ocorrência na delegacia, por medo. Um dia após falar com exclusividade ao DIA, ela viajou para a Europa, onde vai prestar assistência religiosa a seguidores, como faz todos os anos.

Só pensa agora em reconstruir seu terreiro em outro local. Do triste episódio, um motivo de orgulho: "Foram necessários sete homens para subjugar uma mulher de 66 anos". Apesar de tudo, não pensa em vingança. "Peço que os Orixás os perdoem, não quero o mal desses homens. Não sou igual a eles".

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