01 de janeiro de 1970
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Corte no orçamento em pesquisa afasta o Brasil do Prêmio Nobel

País jamais foi agraciado com as famosas láureas da ciência. Verba cai à metade em dez anos

Por O Dia

Parece que, mais uma vez, o Brasil vai passar em branco no Nobel. Salvo por um milagre amanhã, quando será divulgado o laureado de Economia, o país continuará sem nunca ter recebido a maior premiação científica do mundo. Os Estados Unidos, em outro extremo, já foram contemplados 371 vezes este ano, por exemplo, já ganharam em Medicina, Química e Física. Consenso entre professores e cientistas, os cortes no financiamento público das universidades, das agências de fomento e dos centros de pesquisa vão na contramão para aumentar a representação brasileira em premiações.

O orçamento para o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações este ano era de R$ 5 bilhões. Valor que já era baixo e foi reduzido a R$ 2,8 bilhões (44% a menos) com os contingenciamentos anunciados pelo governo federal em março. Em valores corrigidos pela inflação, isso é menos do que um terço do que a pasta tinha em 2010 e menos da metade do de 2005. Considerando que o tamanho da comunidade científica mais do que dobrou no período, pode-se considerar que é o cobertor mais curto da história. O corte no orçamento é uma pá de cal nas ambições do país em ser um grande produtor de invenções tecnológicas.

Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich explica a importância dos investimentos em pesquisa. "O sucesso da agricultura não é fruto de milagre, mas da ciência brasileira. Assim como também não foi por acaso que a Petrobras ganhou prêmios internacionais por sua tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas, ou que os aviões da Embraer ocupam espaços importantes nas frotas de vários países", exemplifica.

Como efeito dos cortes, a principal agência de fomento à pesquisa do país, o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), teve seu orçamento afetado, colocando em risco o pagamento das bolsas de mais de 100 mil pesquisadores. A tesoura tirou R$ 572 milhões dos R$ 1,3 bilhão em 2017.

O relatório da Unesco 'Science Report' de 2015 alerta para o fato de que o declínio nos investimentos em ciência básica, sobretudo nas universidades, pode ter consequências negativas para as nações. "As próximas ondas de altas tecnologias devem emanar de disciplinas que incluem biologia molecular, biotecnologia e farmacêuticos, nanotecnologia, ciências dos materiais e química, em íntima sinergia com tecnologias da informação e da comunicação."

"Minha preocupação é o que vai acontecer nos próximos anos, já que essas crises afetam na formação, na capacidade de atrair pessoas, desestimulando jovens a investir em carreiras. A quebra do ciclo na formação já está acontecendo", alerta Fernando Rochinha, diretor de Tecnologia e Inovação da Coppe/UFRJ.

"O governo deveria entender que investimento em ciência não é um gasto, é um investimento", ressalta Ana Maria Antunes de Campos, professora de Matemática e autora do livro 'Discalculia: Superando as Dificuldades em Aprender Matemática' (Wak).

Também falta foco. "O Brasil investe mais em preparar a população para o mercado de trabalho do que no preparo de pesquisadores para a produção cientifica. Para aumentar o investimento na área de pesquisa, é necessário dar condições às pessoas de chegarem à universidade, o que no país é restrito a uma classe que tem poder aquisitivo. Por isso a defasagem em comparação com os países ganhadores de nobel", disse Eugênio Cunha, mestre em tecnologia da informação e comunicação.

Há três anos, uma exceção à regra: Artur Avila ganhou a Medalha Fields, considerada o 'Nobel de Matemática'. Ele lapidou seu talento no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (Impa), no Horto. "O impacto dos cortes na área da ciência e tecnologia é grave. O corte deste ano no ministério foi repassado em diversos setores, em especial aos institutos de pesquisa, colocando em risco alguns deles. A minha preocupação é que isso se repita em 2018, colocando em perigo a base dos institutos. No caso do Impa, a dificuldade é enorme, as olimpíadas de matemática correm risco", lamenta Marcelo Viana, diretor-geral do Impa.