Gil na trilha dos dias

Por Luís Pimentel Jornalista e escritor

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Gilberto Gil, que merece todas as homenagens, foi o grande homenageado esta semana da primeira edição do prêmio UBC, promovido pela sociedade de artistas à qual pertence, a União Brasileira de Compositores. Todos os prêmios para Gil, hoje e sempre, pois se existe um brasileiro que faz por merecer honrarias é esse bom baiano, cuja obra musical tem sido trilha sonora em nossas vidas há algumas décadas.

Um dia, descendo a Ladeira da Preguiça, em Salvador, pensei em Gil. A via (que já foi crúcis e hoje é ponto turístico) era triste como os escravos que a subiam carregando sacos de mercadorias nas costas, do Porto para a Cidade Alta. Hoje, eu soube, a ladeira que a inspirou está bonita e enfeitada, graças ao trabalho de grafiteiros que encheram paredes sombrias com imagens tão alegres e coloridas quanto o povo baiano.

Lembrei-me de Gil porque, ao ver a placa de rua, comecei num impulso a cantarolar os seus versos que dizem "Preguiça que eu tive sempre de escrever para a família / E de mandar conta pra casa que esse mundo é uma maravilha". E me dei conta de que precisava escrever para a família. E de contar que, maravilhoso ou não, o mundo também me recebera longe de casa. E ia me permitindo viver.

E me dei conta, também, do quanto as canções de Gil eram (foram e são) marcantes em minha vida. Nas nossas, provavelmente.

Naquele momento, meados da década de 70 do século passado, o baiano do interior aqui vivia na capital, que para mim era o mundo. O baiano Gil também estava nos braços do mundo, enfrentando o exílio londrino. Eu arrumava as malas para seguir pro Sudeste maravilha, cantarolando "O Rio de Janeiro continua lindo". Então segui, e temos seguido, com Gil na trilha sonora dos sonhos (o seu sonho preferido por mim é aquele em que ele se encontra "Num congresso mundial, discutindo economia", defendendo a "Ampliação do espaço cultural da poesia"...) e no corpo a corpo suado com o planeta, quando "De repente as águas ficam turvas".

Na trilha dos dias revi emoções com Gil sorrindo ao falar de música, chorando ao lamentar a perda de um filho, indo aos céus para exaltar a poesia e descendo até "Debaixo do barro do chão da pista onde se dança", para falar de dificuldades com a saúde. Na trilha de uma vida tocada a Gil sobrevive uma profunda alegria por existir no mesmo tempo e espaço em que ele, pisar o chão onde ele pisa, respirar o ar que ele respira, ser contemporâneo de sua música e de sua poesia.

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Luís Pimentel, colunista do DIA Divulgação

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