Produção mineral cresce 10,9%, mas indústria ainda demite

Apesar de crescimento da produção, crise das commodities afeta emprego em municípios mineradores. Com operações antigas e caras, Minas Gerais vem sendo o estado mais prejudicado

Por O Dia

Rio - A crise no mercado de minério de ferro agrava as estatísticas de emprego do setor, principalmente no Estado de Minas Gerais, principal produtor brasileiro de minério de ferro. De acordo com dados do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego do Ministério do Trabalho (Caged), cinco das 10 cidades com pior saldo na criação de postos de trabalho na indústria extrativa mineral estão localizadas Em Minas. Representantes dos trabalhadores temem a repetição da crise de 2008, quando a cadeia mineral foi fortemente afetada pela queda abrupta dos preços no mercado internacional.

“Já dá para fazermos uma comparação com 2008. No ritmo em que as demissões estão ocorrendo, podemos chegar ao nível daquela época”, diz Marcos dos Santos Oliveira, diretor de Imprensa e Comunicação do Sindicato Metabase de Itabira, que reúne os trabalhadores da indústria extrativa na cidade. De acordo com o Caged, Itabira teve o terceiro pior desempenho na criação de vagas na indústria extrativa mineral no país este ano, com um saldo negativo de 125 postos de trabalho. Oliveira diz que o resultado reflete demissões da Vale, que vem reduzindo seu contingente no município.

Na lista dos piores desempenhos na geração de empregos do setor, figuram ainda os municípios mineiros de Itabirito, Poços de Caldas, Brumadinho e Ouro Preto, entre outros. O fechamento de postos de trabalho é resultado de um esforço das mineradoras para se adequar à nova realidade de preços — que caíram da casa de US$ 130 a tonelada no início de 2014 para abaixo dos US$ 50 este ano. O corte de vagas foi iniciado no ano passado e vem se intensificando no início de 2015, apontam os dados do Caged. Em Itabirito, por exemplo, o saldo negativo dos dois primeiros meses do ano é superior ao registrado em todo 2014.

“Se não houver recuperação dos preços das commodities, podemos chegar a uma situação semelhante à de 2008. Até agora, há empresas esperando para ver como o cenário se define, já que é grande a dificuldade para recontratar pessoal especializado”, comenta José Osvaldo Rosa de Souza, diretor do Departamento Mineral da Federação dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas do Estado de Minas Gerais (Ftiemg). A situação no estado é agravada pela idade avançada das minas, que amplia os custos de produção.

“Nesses casos, trabalha-se com minério de mais difícil acesso e com menor teor de ferro, o que demanda tecnologia e investimentos e significa maiores custos de produção”, explica o secretário estadual de Desenvolvimento, Altamir Rôso. Segundo ele, o governo tem se reunido com empresas para avaliar o cenário e buscar alternativas para a manutenção das operações. Além dos empregos, Minas se preocupa com os impactos da crise na arrecadação: o estado é o maior beneficiário da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (Cfem) paga pelas mineradoras com base na receita de cada mina.

As estatísticas tendem a piorar quando saírem os dados de março: em meados do mês passado, diz a Ftiemg, a Ferrous suspendeu as atividades da Mineração Esperança, em Brumadinho, com a dispensa de cerca de 200 trabalhadores e transferência de outros empregados para atividades fora do município. Segundo a Federação, apenas 92 trabalhadores permanecem na unidade para manutenção preventiva dos equipamentos. A entidade está concluindo um estudo sobre os impactos da crise no emprego do estado.

Mesmo com os baixos preços, o setor tem apresentado grande crescimento na produção — é o único com crescimento expressivo no acumulado do ano, segundo informou ontem o IBGE — situação que tem sido usada como argumento contra as demissões. “A Vale bateu recorde de produção em 2014 e entendemos que, neste momento de crise, tem condições de manter os trabalhadores até que o cenário melhore”, diz Oliveira. Ele calcula que, apenas este ano, foram demitidos 100 trabalhadores diretos e cerca de 2 mil indiretos das minas em Itabira.

O sindicato se uniu a outras entidades, como a Câmara dos Diretores Lojistas, a representação local da Ordem dos Advogados do Brasil e lideranças religiosas no movimento “Reage Itabira”, que busca reduzir o impacto da crise nos empregos no município. “Para cada empregado direto demitido, há uns três ou quatro indiretos no comércio e nos serviços que perdem o emprego também”, reforça. No ano passado, a cidade teve um saldo negativo de 690 postos de trabalho na indústria extrativa mineral, segundo os dados do Caged.

Em nota enviada ao Brasil Econômico, a Vale defende que tem uma “taxa de rotatividade bem abaixo da média da indústria brasileira de mineração e siderurgia, que é de 15%”. “A empresa reforça que, para se adaptar ao atual cenário da mineração, tem focado suas atenções no rigor da alocação de recursos, na otimização e simplificação de processos e no desenvolvimento de ativos de classe mundial, em busca de mais produtividade e para garantir o retorno desejado para seus acionistas”, completa a empresa.

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