PIB do primeiro trimestre trará retrato distorcido da economia

Para analistas, a conjuntura mudou, sobretudo em relação à inflação, que marcou a atividade de janeiro a março

Por O Dia

Especialistas acreditam que o consumo continuará afetando a inflação, mas ajudou a elevar o resultado do PIB do primeiro trimestreMARCELA BELTRAO

O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre deste ano, que será divulgado na próxima sexta-feira, trará revisões metodológicas do cálculo pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Serão incorporadas as modificações realizadas na pesquisa industrial, a PIM-PF, cujos efeitos no PIB são desconhecidos. A visão do mercado, no entanto, é que o resultado da atividade econômica do período de janeiro a março deste ano tenha sido pior do que o do quarto trimestre (0,7% ante o trimestre anterior). Outra leitura de analistas é que esse PIB se refere a um período atípico da economia e, por isso, pouco revela sobre os meses seguintes.

Além de desconhecer se a revisão metodológica vai contribuir ou prejudicar as primeiras taxas de 2014, os analistas consideram que, do primeiro mês do ano até hoje, houve mudanças expressivas na economia — como a perda de ritmo da inflação — que alteraram completamente o cenário. Além disso, a percepção é de que gestores, pessoas com poder de decisão, inclusive de investimentos, estão mais preocupados com as eleições e com os programas de governo dos candidatos Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB), do que em olhar no retrovisor, na análise de um PIB passado.

“O resultado pode até ter algum efeito em termos de debate político, entre os candidatos. Mas, para gestores, tem pouca influência, porque a conjuntura do primeiro trimestre e do início do segundo já é mais do que conhecida pelos investidores”, avalia Fernando Sampaio, economista da consultoria LCA.

Para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, os investidores estão muito atentos às “condições do jogo” político. Ele acredita que mesmo com uma mudança de governo, com a vitória de Aécio, o próximo presidente terá pouco espaço para alterar a política econômica. Entretanto, nem o candidato do PSDB, nem Eduardo Campos, do PSB, informaram seus programas de governo claramente. Estas informações sim, e não o PIB do primeiro trimestre, deverão influenciar os investidores neste ano, segundo Perfeito.

Outra questão importante sobre o futuro da economia, diz ele, é se o Banco Central dará continuidade ao ciclo de alta da Selic, atualmente em 11%. A aposta do economista é que, na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), na quarta-feira, seja definido um acréscimo de 0,25 ponto percentual. A análise de que a autoridade monetária continuará atuando para conter as rédeas da inflação é baseada na observação de que as expectativas de inflação para 2014 e 2015 ainda estão altas.

O Boletim Focus, elaborado pelo BC, com projeções de um grupo de economistas, demonstrou uma revisão das apostas para cima do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) relativo ao fechamento de 2014. Da semana anterior para esta, a projeção passou de 6,43% para 6,47%. Já para o índice de preços da Fundação Getúlio Vargas (FGV) — o IGP-M, usado no reajuste de alugueis — a leitura foi melhor nesta semana: tendo passado de 7,11% para 6,97%. Na formação do IGP-M, pesa mais o segmento de atacado do que o de varejo, por isso a diferença entre as projeções.

Considerando o IPCA, a expectativa, portanto, é que a taxa em 12 meses se aproxime do teto da meta, de 6,5%. José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos, ressalta que embora a atividade esteja fraca no primeiro e segundo trimestres, o consumo, ancorado pelo avanço do rendimento no mercado de trabalho, continua pressionando a economia e preocupando.

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