Tombini diz que inflação vai ceder já em abril

Presidente do BC, entretanto, afirma que perspectivas da economia não são boas no curto prazo, prevê uma “economia fraca” em 2015 e situação “um pouco melhor”, só em 2016

Por O Dia

Brasília - A escalada recente do custo de vida, que, em março, poderá ultrapassar a casa dos 8,2%, no acumulado em 12 meses, deverá perder força a partir do mês que vem e dar algum alívio ao bolso do consumidor. O recado foi dado ontem pelo presidente do Banco Central (BC), Alexandre Tombini, durante audiência pública na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), do Senado. Na ocasião, o comandante da política monetária disse esperar que, “já a partir de abril, devemos observar uma inflação bem mais baixa do que neste início de ano”.

Mas, por mais que Tombini tenha se esforçado em mostrar otimismo, os prognósticos para a economia, confidenciou, nem de longe inspiram confiança. “Estamos trabalhando com um cenário desafiador no curto prazo e melhorando as perspectivas para o médio e longo prazo”. O BC, acrescentou, enxerga “uma economia fraca” este ano, que pode vir “melhor no segundo semestre do que no primeiro”, e acredita que uma situação “um pouco melhor” só deve de fato ocorrer de 2016 em diante.

Parte dessa imprevisibilidade com a economia se deve à instabilidade do câmbio em 2015. Dado o cenário político turbulento e devido a preocupações no âmbito externo com os próximos passos da política monetária dos Estados Unidos, o dólar vem ganhando força contra as principais moedas, inclusive o euro e o real. Em três meses, a divisa pulou de R$ 3 para R$ 3,30. Nos últimos três dias, porém, diante da manutenção do grau de investimento do Brasil pela agência Standard & Poor’s, o quadro de apreciação cambial inverteu-se, e a moeda americana passou a operar em queda frente ao real. Após três quedas consecutivas, no entanto, a cotação ainda incomoda: R$ 3,12.

O BC acompanha com lupa o movimento do câmbio, porque entende que uma apreciação forte e duradoura do dólar poderá elevar ainda mais a pressão sobre a inflação. Outra preocupação iminente é com a exposição das empresas, sobretudo as não financeiras, a dívidas em moeda estrangeira. Após a normalização dos fluxos financeiros, depois de vencida a primeira etapa da crise econômica mundial, diversas empresas brasileiras foram ao mercado externo tomar dinheiro a taxas de juros reduzidas, em empréstimos feitos em dólar.

O BC viu risco de quebradeira dessas empresas com a reversão da política de juros baixos dos EUA, o que se tornou mais claro em meados de 2013. Por isso, mantém, desde agosto daquele ano, um pesado pacote de intervenções sobre o dólar, batizado de ração diária ao mercado. O programa de leilões de swap cambial e de venda de dólares com compromisso de recompra já foi renovado duas vezes, em 2014 e no início deste ano. Esta última etapa, no entanto, vai acabar este mês: ontem à noite, o Banco Central emitiu comunicado dizendo que a “não renovação do referido programa em 31 de março de 2015”. Em vez disso, a autoridade monetária disse que renovará integralmente os swaps cambiais vincendos a partir de 1º de maio de 2015, “levando em consideração a demanda pelo instrumento e as condições de mercado”.

O BC vinha usando duas estratégias para suavizar as variações do dólar: diariamente, injeta dólares no mercado, por meio de operações de venda de moeda no mercado futuro (leilões de swap); em outra frente, oferece liquidez às empresas, ao rolar contratos de câmbio.

Ontem, Tombini deu declarações dúbias sobre as intenções do BC. Primeiro, disse que o programa de swaps cambiais tem atingido “plenamente” seu objetivo, e reforçou que o instrumento de oferta de hedge (proteção) tem impacto “cumulativo” no mercado. Depois, mencionou que, apesar de elevado, o estoque de intervenções sobre o câmbio representa atualmente 30% das reservas internacionais. Não por outro motivo, disse ele, o BC não tem nenhuma preocupação em manter esses estoques, ainda que a oscilação da cotação do dólar possa gerar perdas ao BC. “Estamos confortáveis com essa posição. Nós podemos mantê-la por 10, 20 anos”, frisou Tombini, despistando em seguida: “Não que vamos fazer isso.”

Tombini também reforçou que, embora o dólar possa causar preocupações sobre o comportamento da inflação, a manutenção ou não das intervenções não tem por objetivo “segurar o câmbio em nenhum nível”

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