O poder do emprego e do crédito

O menor emprego, e consequente queda do rendimento da população, reduz o consumo, retraindo ainda mais a economia e o emprego, num círculo vicioso

Por O Dia

Os mais poderosos mecanismos de realimentação, seja de uma fase de expansão da economia ou de uma fase contrária, de recessão, são o emprego e o crédito. No Brasil, o que explica a aceleração
que parece patente do declínio econômico no primeiro trimestre e no início do segundo trimestre de 2015 é precisamente um desdobramento de uma forte reversão do emprego e uma contração notável da concessão de crédito.

A matriz da deterioração da ocupação teve uma dupla origem. Em primeiro lugar, o agravamento das demissões que desde muito antes já estava em curso nos setores da indústria de transformação, da construção civil e do comércio. Para se uma ter ideia, segundo dados do emprego formal (Caged), esses três ramos demitiram em abril deste ano 98 mil trabalhadores, praticamente o número de demissões líquidas da economia registrado naquele mês. Para efeito de comparação, um ano antes esses mesmos segmentos contratavam 17 mil trabalhadores com emprego formal. Ou seja, a piora no emprego no corrente ano decorreu do agravamento da crise em setores onde ela primeiro se instalou.

Em segundo, mas não menos importante, foi o fato de que a crise finalmente chegou ao setor até então poupado e que vem a ser o maior empregador entre todos os demais. De acordo com pesquisa do IBGE, em 2015 até abril, contrariamente ao ano anterior, a receita nominal de serviços ficou muito abaixo da inflação, isto é, teve involução real. Muito grave foi a passagem de uma situação onde ainda se apurava aumento real de faturamento para declínio em um segmento de serviços que é especialmente empregador, qual seja, serviços prestados às famílias.

Os dados de emprego formal não deixaram de registrar que o “escudo” representado por esse setor foi derrubado pela crise. Se em abril de 2014 o setor ainda ampliava seu efetivo em 69 mil pessoas, mais do que compensando o baixo dinamismo dos demais setores, em abril último demitiu 8 mil trabalhadores, deixando de ser um “estabilizador” do emprego para vir a ser um dos fatores promotores do desemprego.

O mecanismo de realimentação funciona a partir daí: o menor emprego, e consequente queda do rendimento da população, reduz o consumo, retraindo ainda mais a economia e o emprego, renovando-se o círculo vicioso. Tememos que esse processo realimentador da crise econômica brasileira esteja apenas começando, na medida em que está apenas tendo início a queda no setor de serviços.

O crédito funciona como vetor adicional de realimentação pois a perspectiva de agravamento da situação econômica e financeira das empresas e das finanças pessoais leva o sistema bancário a uma maior seletividade nas suas operações de empréstimo. No caso brasileiro, o quadro é pior porque a política de ajuste fiscal vem determinando uma grave retração do crédito dos bancos públicos, que também vêm perdendo recursos de depósitos do público, a exemplo dos depósitos de poupança.

Como os últimos dados do Banco Central divulgados nesta semana revelam, as concessões tiveram variação nominal de apenas 0,7% no acumulado de janeiro-abril de 2015, sobre igual período de 2014, portanto um índice altamente negativo em termos reais. O maior impacto veio do crédito para as empresas, -4,7% em termos nominais, enquanto para as famílias o aumento de 5,7% não compensou a inflação. No crédito com recursos direcionados, o retrocesso dos financiamentos foi muito maior, - 12,5%.

Com a redução do crédito, as empresas vendem menos para outras empresas e para os consumidores, e consequentemente a economia aprofunda a retração e o emprego diminui adicionalmente. O processo cumulativo do crédito tem sequência porque a piora da situação das empresas e das famílias aumenta a inadimplência, o que renova a restrição à concessão pelos bancos de novos financiamentos.

No atual quadro econômico do Brasil, infelizmente, esse processo adverso vindo do crédito também só está começando, já que os índices de inadimplência das empresas e das famílias praticamente vêm, por enquanto, se mantendo estáveis em níveis relativamente baixos.

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