João Pimentel: A sombra do ciúme

Nossas experiências não são a kriptonita que enfraquece o Super-Homem, e sim o espinafre que dá forças ao Popeye

Por O Dia

João Pimentel%3A A sombra do ciúmeDivulgação

Rio - Voltando da festa de aniversário de 49 anos do Museu da Imagem e do Som, na terça passada, deixo uma amiga e seu filho na Lapa e sigo no táxi. Puxo um papo sobre crianças e o motorista me conta sua história de vida. Aos 34 anos, ele já tem três filhos. Os dois primeiros , frutos de relações passageiras, de “descuidos”, conforme ele me disse. Já o menorzinho, que hoje tem dois anos e leva o seu nome, é filho de sua atual companheira. Atual, segundo ele, por conta do rebento. Dei corda e ele continuou com a sua visão da história. A namorada engravidou “porque não tomou a pílula” e, não fosse o filho, certamente eles não estariam mais juntos.

“Mas você não gosta dela?”, perguntei.
“Gostava, mas ela tem ciúmes demais, fica sempre me controlando. Ela tem ciúmes do cara que eu já fui e não sou mais. Ela tem ciúmes do meu passado!”

Então eu brinquei, disse que, se ela continuasse assim, iria acabar sentindo ciúmes é do futuro dele.
O papo, que no começo era bem machista, como se um filho não fosse fruto de uma relação de duas pessoas, me fez ir pra casa pensando em outro tema: o ciúme.

Temos as nossas neuroses, nossas inseguranças, tudo isso é normal, humano. Mas sempre penso no porquê de, por vezes, deixarmos que esse tipo de sentimento, também natural, destrua algo tão bacana como um relacionamento com alguém que amamos. “Tanta gente canta, tanta gente cala/ Tantas almas esticadas no curtume/ Sobre toda estrada, sobre toda sala/ Paira, monstruosa, a sombra do ciúme”, cantou Caetano Veloso.

Mas à monstruosa sombra do ciúme prefiro a sabedoria de Cartola, que pediu Dona Zica em casamento com um belo samba: ‘Nós Dois’, uma declaração de amor verdadeira, madura, definitiva. Uma proposta de se entender, mas não de desprezar, o vivido. De compreensão que somos o que vivemos, ainda bem, e que é essa bagagem que nos faz melhores, prontos para outra.

Pobre de quem sai de cada relação se sentindo um fracassado. Nossas experiências não são a kriptonita que enfraquece o Super-Homem, e sim o espinafre que dá forças ao Popeye.
Fiquemos com a sensibilidade do mestre mangueirense:

“Terminam nossas aventuras/ Chega de tanta procura/ Nenhum de nós deve ter mais alguma ilusão/ Devemos trocar ideias e mudarmos de ideias, nós dois/ E se assim procedermos, seremos felizes, depois/ Nada mais nos interessa/ Sejamos indiferentes/ Só nós dois, apenas dois, eternamente”.

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