Ricardo Cota: 'Quem tem medo do lobo Grey?'

Perto de filmes como ‘Ninfomaníaca’, de Lars Von Trier, ‘50 Tons de Cinza’ não passa de um conto da carochinha

Por O Dia

O milionário Christian Grey (Jamie Dornan)%2C de ‘50 Tons de Cinza’Reprodução

Rio - Dificilmente ‘50 Tons de Cinza’, de Sam Taylor-Johnson, não irá superar a marca de ‘A Culpa das Estrelas’, o filme mais visto no Brasil em 2014. Completando um mês em cartaz, já ultrapassou a marca dos 5 milhões de espectadores, encostando nos pouco mais de 6 milhões obtidos pelo romance entre jovens terminais exibido no ano passado. O êxito repete-se mundo afora, sobretudo nos Estados Unidos, e reflete-se numa arrecadação bilionária.

O sucesso confirma o toque de Midas da britânica E.L. James, autora da trilogia que se transformou em verdadeiro fenômeno literário. Como sucesso só tem receita depois que se confirma, hoje torna-se mais fácil compreender a mecânica da mola propulsora que elevou a saga sexual de Christian Grey e Anastasia Steele aos patamares atuais.

Livro e filme, no entanto, mantêm distâncias estratégicas entre si. Sem maiores rebuscamentos literários, E.L. James constrói sua narrativa com referências óbvias e uma linguagem direta, próxima ao imediatismo e reducionismo comuns à troca de mensagens virtuais. Os nomes dos personagens, no original, explicitam o caráter de cada um, poupando a autora de figurações mais sofisticadas. Christian é Grey (‘cinza’) e Steele obviamente refere-se a ‘steel’, ‘aço’ em português. A dinâmica entre o dominante opaco e sua presa resistente é entregue assim, sem sutileza.

A grande diferença entre livro e filme está na forma de abordar a tensão sexual entre os dois. E.L. James é mais explícita e, em alguns momentos, não muitos, tangencia a pornografia. Já o filme de Sam Taylor-Johnson, e aí uma das razões para se tornar palatável ao grande público, opta pelo caminho da sugestão, de um erotismo que se convencionou nomear ‘soft’, apesar de salpicado de apetrechos e chibatadas.

Perto de filmes como o recente, e polêmico, ‘Ninfomaníaca’, de Lars Von Trier e do hoje clássico ‘O Último Tango em Paris’, de Bernardo Bertolucci, ‘50 Tons de Cinza’, no entanto, não passa de um conto da carochinha. Seu perfil moralista está presente na sedução ligada ao dinheiro e à fama e até na absurda confecção de um contrato entre as partes de dominante e dominada.

A tensão sexual precisa de uma justificativa forte, de um acordo entre as partes. Ou seja, está tudo dominado e moralmente, ainda que de forma transversal, compactuado. Resumindo: no romance entre Christian Grey e Anastasia Steele a perversão é apenas um detalhe.

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