Luiz Antonio Simas: Funcionário exemplar

O príncipe resolveu honrar Patrício com o título de Gentil Homem do Reino e funcionário da Real Fazenda

Por O Dia

Rio - A presidente da República, no meio desse vendaval dos diabos da política nacional, enviou dia desses ao Congresso um projeto de lei que, buscando combater a corrupção, prevê a punição para funcionários públicos envolvidos em maracutaias, mamatas e todo o vasto repertório de safadezas. Lembrei-me imediatamente do boi Patrício, de saudosa memória.

Historiadores e professores de História adoram falar sobre a chegada da família real portuguesa ao Brasil, citando Dom João, Dona Maria I, Carlota Joaquina, Dom Pedro, Dom Miguel, e por aí vai. Costumam, porém, esquecer que Patrício, o boi de estimação de Dom João, também fugiu da invasão de Napoleão Bonaparte, cruzou o mar e chegou ao Brasil com a Corte, em 1808.

Patrício encarou a travessia do Atlântico com a galhardia típica dos bovinos de boa cepa. Segundo relatos, mugiu pouco, comeu moderadamente e foi discreto na hora de fazer suas necessidades fisiológicas em alto-mar.

Ao desembarcar no Rio de Janeiro, Dom João revelou-se preocupado com a acomodação de seu querido Patrício. Depois de muito matutar, resolveu enviar o boi para a Real Fazenda de Santa Cruz. O mais interessante foi o seguinte: o príncipe resolveu honrar Patrício com o título de Gentil Homem do Reino e funcionário da Real Fazenda — o que daria ao vacum o direito de receber uma substancial pensão para suas despesas diárias.

O boi Patrício, dessa forma, viveu seus anos de Brasil com a maior tranquilidade, exercendo com sabedoria suas funções de funcionário na Fazenda de Santa Cruz. Elas consistiam basicamente em pastar, invadir terrenos vizinhos, meditar, dormir, acordar, fazer cocô e pastar de novo; nos conformes recomendados pela mais avançada mastozoologia dos bovídeos.

Quando explodiu, em 1820, a Revolução Liberal do Porto, e com ela os primeiros levantes a favor da Independência do Brasil, alguns liberais exaltados, do grupo político de Gonçalves Lêdo, receberam a denuncia de que o boi Patrício era pensionista e funcionário público fantasma. Os exaltados, então, fizeram um estardalhaço, denunciando a mamata e exigindo a restituição dos ganhos do bovino aos cofres públicos.

No fim das contas, Dom João voltou a Portugal, o Brasil ficou independente, Patrício não se alterou com os desdobramentos do Grito do Ipiranga e viveu o resto de seus dias na então bucólica Santa Cruz. Faleceu em idade avançada, com fama de ter sido um boi de bem. Recebeu sepultura cristã. Não foi dedo-duro; nunca se pronunciou sobre as denúncias a respeito de sua condição de pensionista e não consta que tenha recebido punições.

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