João Pimentel: Noites de Natal

E o espírito natalino renasceu, ou nasceu em minha vida com a lição de que o grande presente é estarmos vivos (...)

Por O Dia

Rio - Não são poucas as lembranças das noites de Natal. Todos temos boas, e nem tão boas, histórias natalinas. Quando criança, ainda envolto pelo mundo da fantasia, pelas histórias do Papai Noel, ficava esperando o presente encomendado por bilhetinhos. Tinha um anúncio de uma fabricante de bicicleta em que um menino, ou uma menina, escrevia para o velhinho: “Papai Noel, não se esqueça da minha Caloi”. Então, bem antes da virada do dia 24 para o dia 25 eu espalhei meus pedidos: “Papai Noel, não se esqueça da minha Caloi, da minha lancha do Batman de controle remoto, da minha bola Dente de Leite de couro, da minha camisa do Flamengo autografada pelo Zico, do meu time novo de botão, do autorama do Fittipaldi, daquele saco de jujuba...”.

É evidente que Noel deve ter me achado um tanto exigente. Por isso mandou minhas tias me darem mesmo foi um monte de meias e cuecas. E meu pai, que não perdia, e não perde uma piada, cantava um improviso de sua autoria: “Nunca passei um natal tão chato, Papai Noel fez cocô no meu sapato...”.

Mas isso foi na infância. Na adolescência e início da juventude, pais separados, ia, muito a contragosto, com meu velho, minha avó e meu irmão para a casa de um tio-avô, irmão do avô que mal conheci. Éramos poucas crianças em um ambiente um tanto quanto sisudo. Não tenho muitas lembranças, apenas a de uma noite em que a campainha tocou e esse tio-avô, já acometido pelos males da idade, abriu a porta e exclamou: “Meu filho!”, para o espanto geral, afinal ele, em seu casamento de 40 anos, nunca tivera um rebento. Resolveu, por seu próprio juízo, ou pela falta absoluta dele, que a noite de Natal seria um bom momento para o congraçamento familiar. Não foi.

Mais velho, eu e meu irmão decidimos não ir mais àquelas festas. Então passávamos com a nossa avó, Vera, com nosso pai e depois cada um ia para outras confraternizações. Ou seja, o Natal sempre foi um data, se não aborrecida, no mínimo sem graça. O tal espírito natalino passava por ali que nem o Papai Noel da minha infância, de saco vazio. Ou de saco muito cheio.

Mas o tempo, curiosamente, fez com que as coisas se ajeitassem. Ao invés de dezenas de pedidos estapafúrdios infantis, Papai Noel guardou para mais tarde um grande presente que foi a minha família se reencontrar. Meus pais hoje são amigos, algo inviável há tempos atrás, e tios, primos, sobrinho que estavam espalhados por aí hoje reapareceram como seu eu tivesse escrito: “Papai Noel, chama o tio Mauro, chama minha prima Constância, não esquece da tia Selma”.

E o espírito natalino renasceu, ou nasceu em minha vida com a lição de que o grande presente é estarmos vivos, com alegria, com paz, com saúde, cercado de amigos, sejam parentes ou não, seja em que dia for.

Obs.: Comecei a escrever sem saber exatamente o que sairia, mas as palavras apareceram, emocionadas, porque é difícil falar de paz e alegria com as coisas do jeito que estão. Mas que a noite de Natal seja, ao menos, e principalmente, a lembrança de que todos os dias devemos pensar no próximo, sermos mais tolerantes, mais respeitosos e mais humanos.

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