Parentes de Martinho da Vila representam 5 quesitos importantes na azul e branca

Este ano, a grande família tem participação direta em quesitos como enredo, samba-enredo e mestre-sala e porta-bandeira, além de estar presente na bateria e na harmonia.

Por O Dia

Rio - Eles cresceram juntos a partir de meados da década de 60. Ela no mundo do samba. Ele como expoente da música popular brasileira. Martinho, da Vila, 78, entrou na história da azul e branco há 51 anos, e a escola Vila Isabel virou a paixão de filhos, netos e bisnetos do cantor e compositor. Entre tapas e beijos, ingredientes presentes só em longas histórias de amor, Martinho mantém quatro gerações da sua prole na agremiação. Este ano, a grande família tem participação direta em quesitos como enredo, samba-enredo e mestre-sala e porta-bandeira, além de estar presente na bateria e na harmonia.

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Sexta-feira, na quadra, Martinho usava camisa branca onde havia impresso no peito ‘88 Kizomba’. A frase se refere ao enredo ‘Kizomba, a Festa da Raça’, de sua autoria, que deu o primeiro título do Carnaval à escola. “A Vila é boa de ser amada. É aquela mulher que me emociona, encanta, maltrata, mas é minha. Ora sou filho dela, ora ela é minha filha”, derrete-se o compositor, que em 2006 teve seu samba retirado da competição e se afastou da agremiação. A separação durou muito pouco.

Como não existe relação sem altos e baixos, o amor move a paixão pela escola. E isso, Martinho passou à família, que tem sangue azul e branco. Os oito filhos vão desfilar este ano. Com os olhos brilhando, ele anuncia a pequena bisneta Aimée, de 1 ano e 8 meses, como aposta de porta-bandeira. Mas, na segunda-feira de Carnaval, Dandara, a neta de 24 anos, é quem entrará na Avenida com o estandarte, ao lado do mestre-sala Phelipe Lemos, um dos quesitos mais importantes.

“Já empurrei carro, fui passista e integrante da comissão de frente. Agora, vou para o segundo ano em busca dos 40 pontos para a escola, é o desafio. A responsabilidade pesa, são várias noites acordada, mas não aumenta por ser neta dele”, orgulha-se Dandara. A bela mulata conta o trabalho de preparação feito pelo irmão Raoni, 30, professor de educação física. “A exigência é grande. Mas a questão não é só profissional”, diz Raoni. Ele vai sair na bateria, tocando tarol, assim como o irmão Guido, 15, no time dos ritmistas da caixa.

A primeira experiência de Guido na Sapucaí foi na barriga de Analimar, 51, presidente da Herdeiros da Vila, a escola mirim, mãe também de Dandara e Raoni. “Estou há 42 anos aqui. Sou ex-baiana, ex-bateria e ex-presidente de ala”, conta, com carinho e reverência ao pai. Afinal, tudo passa pelo crivo do compositor.

Martinho, presidente de honra da escola, é autor de sete enredos como o deste ano ‘Memórias do Pai Arraia, um sonho pernambucano, um legado brasileiro’, que homenageia o centenário do político Miguel Arraes. O samba ele compôs com a filha Mart’nália, Arlindo Cruz, André Diniz e Leonel, além de ter outros 12 no currículo. “É muita tensão. Mas não fico sozinho, eles estão sempre comigo”, diz o maior ídolo da Vila, referindo-se aos descendentes.

No desfile, Martinho virá na frente da escola

Organização é palavra-chave da Vila Isabel na busca por mais um campeonato. A Azul e Branco ensaia desde novembro, chova ou faça sol, pelo bairro de Noel Rosa. Confiante no título, Martinho recusou show no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no sábado das campeãs para estar no Rio. “Enredo é história, mensagem e informação. A tudo isso, unimos alegria e dança. Estamos entusiasmados como nunca para fazer um excelente desfile”, revela Martinho.

O compositor optou pelo enredo ‘Memórias do Pai Arraia — Um sonho pernambucano, um legado brasileiro’. A escolha acontece em um momento onde os políticos estão em baixa, atrelados à corrupção. “Mas sem político não há democracia. O Miguel Arraes valorizou a educação, o caboclinho, o maracatu. Ele era cearense mas fez história em Pernambuco apoiando a cultura popular. Temos que contar essa história”, analisa.

Para Analimar, que desfila na Vila desde os nove anos, cada Carnaval é uma emoção diferente. “Amor a gente aprende em casa. Na Avenida é dar o máximo”, ensina. A cada passo da Azul e Branco, Martinho discute com o carnavalesco Alex de Souza. No desfile de segunda, ele irá à frente da agremiação.

"O samba-enredo é o fio condutor, o que para mim é fantástico. Não há disputa entre as escolas. Não há comparação entre um trabalho e outro”, vibra, como um garoto, Martinho José Ferreira, com a escola que lhe deu mais um sobrenome: Da Vila.