Moro com meus pais

A exemplo do Murilo de ‘Amor à Vida’, brasileiros continuam morando com a família até cada vez mais tarde

Por O Dia

Rio - Da boca do ator Emilio Orciollo Netto, não há palavra que melhor defina o personagem Murilo de ‘Amor à Vida’, da Globo: “É um fanfarrão!”, exclama, entre risos. Filho de Gigi (Françoise Forton), o playboy viveu sempre agarrado na barra da saia da mãe, acostumado com o luxo e o dinheiro da família tradicional, hoje falida. “Ele definitivamente não gosta de trabalhar”, opinou o ator. Deixando a vadiagem de lado, o personagem chega a causar reconhecimento em alguns lares.

É crescente o número de Murilos que — ao contrário do original — vão à luta, possuem renda própria, mas continuam a morar na casa dos pais. Prestes a completar 30 anos, o fisioterapeuta Marcelo Ferreira não tem pressa nenhuma em se mudar.

Em ‘Amor à Vida’%2C Emilio Orciollo Netto interpreta Murilo%2C um playboy que já passou dos 30%2C mas ainda vive na aba da mãe%2C Gigi (Françoise Forton)Matheus Cabral / TV Globo

“As vantagens de morar com os pais falam muito mais alto do que as desvantagens. Se saísse de casa, o meu padrão de vida cairia demais, pois teria outros custos, como aluguel, faxineira e as próprias contas”, explica.

A atriz Françoise Forton acredita que a família que interpreta na telinha, ao lado de Emilio, é “atual e contemporânea”. “O período da adolescência e da maturidade parece ter ficado um pouco maior. Antigamente, as pessoas saíam de casa mais cedo. Hoje, a vida é muito veloz. Com a internet, todas as informações chegam com mais facilidade, sem você fazer esforço para buscá-las”, resume.

O analista de sistemas Rafael Barros%2C 31%2C foi morar com um amigo para ficar mais perto do trabalho%2C mas tem vontade de voltar a morar com os paisDivulgação

E quando a pergunta está centrada nos porquês de permanecer com os pais, as respostas são quase sempre as mesmas: “questão financeira” ou “comodidade”. Professora de Educação Física, Isabella Palmiro, 30, já pensou muito em arranjar um espaço apenas para si, mas o peso das cifras a impediu de concretizar a ideia.

“O preço dos imóveis está muito alto. Ficando com os pais, posso juntar dinheiro aos poucos”, explica. “É claro que acabo me limitando em trazer quem eu quero para casa, mas isso é natural. O que importa é a boa relação que eu mantenho com eles”.

O analista de sistema Rafael Barros, 31, jamais achou que fosse sair da aba da mãe tão cedo. Decidiu morar com um amigo no Recreio apenas porque a casa dos pais, em Niterói, ficava muito longe do trabalho, na Barra. Mas sente falta.

“Hoje, tenho vontade de voltar a morar com os meus pais. Mas não é por motivo financeiro ou pela comodidade de ter a casa limpa, por exemplo. Não sei explicar por quê. Sinto-me muito bem em casa, com eles. Aliás, sempre que posso vou a Niterói”, confidencia, sem vergonha.

A analista de contratos Renata Cunha, 33, que mora com a mãe e o irmão, de 30, acredita que o fator cultural é uma forte influência nesse comportamento. “Os latinos têm uma ligação muito forte com a família. Não existe essa obrigação de sair logo de casa, como parece haver nos Estados Unidos”, arriscou.

Há quatro anos, o ator Paulo Gustavo, 34, fez o movimento inverso. Sozinho numa casa muito grande, convidou a mãe, Dea Amaral, para dividir o telhado. “E ele é que acabou virando o meu pai!”, gargalha a musa inspiradora para a personagem Dona Hermínia, do espetáculo e agora filme ‘Minha Mãe é uma Peça’.

Conforto para economizar

Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) garantem que 61,7% da população entre 18 e 29 anos ainda moram com os pais. A motivação principal para a permanência está em aproveitar ao máximo a comodidade e, com isso, juntar dinheiro para investir mais na profissão. Só mais tarde é que eles alçam voos para fora do ninho.
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“Não adianta sair de casa para ser sustentada pelos pais. Até tenho condições financeiras de morar sozinha, mas a minha qualidade de vida baixaria muito. É preferível aproveitar a comodidade do lar dos pais para guardar as economias, e depois, sim, sair”, explicou a analista de contratos Renata Cunha, 33, que mora com a mãe e o irmão, de 30.

No caso do ator Paulo Gustavo%2C 34%2C foi ele quem convidou a mãe para morar junto. Na foto%2C Dea Amaral (de laranja) posa ao lado da família. Reprodução Facebook

Dificuldades de comprar um imóvel ou pagar aluguel e condomínio, além de ter que arcar com o peso de contas fixas, como luz, gás, água e alimentação, são determinantes. Segundo especialistas, incluir esses gastos no orçamento de universitários recém-formados ou de quem ainda engatinha na profissão são pontos que assustam.

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