Acusação de violência sexual é o novo argumento para 'vigiar' atletas em 2016

COB já preparava orientações de comportamento para os Jogos Olímpicos no Rio antes mesmo de o caso envolvendo Thye Bezerra, do polo aquático, acontecer em Toronto

Por O Dia

Canadá - Não serão apenas os resultados esportivos que estarão sob análise para os Jogos Olímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. A ocorrência policial envolvendo Thye Bezerra, goleiro da seleção brasileira de polo aquático, acusado de violência sexual contra uma mulher de 22 anos em Toronto dias após encerrar sua participação nos Jogos Pan-Americanos, reforça uma ideia que o COB (Comitê Olímpico do Brasil) já planejava por conta de polêmicas de menor escala: estabelecer alguns limites de comportamento para os atletas.

O principal motivo de preocupação dos dirigentes mais ligados ao Time Brasil até então era a internet. Essa situação ficou mais evidente quando a nadadora Joanna Maranhão usou seus perfis em redes sociais para criticar políticos que votaram a favor a redução da maioridade penal no Brasil, de 18 para 16 anos. "Não faço questão nenhuma de ter a torcida de vocês", escreveu Joanna, dirigindo-se a quem apoia a causa. O caso repercutiu, e o COB "orientou" (usando a palavra difundida pela entidade) os atletas a evitarem comentários polêmicos, o que gerou mais polêmica ainda, pois a impressão foi de censura.

O atleta Thye Mattos bezerra é acusado de assédio sexual durante o PanSátiro Sodré/CBDA

Preocupa também a exposição excessiva de atletas nas redes sociais. Nos Jogos Olímpicos de Londres-2012, a judoca Rafaela Silva ficou bastante abalada depois de uma enxurrada de insultos racistas que recebeu pelo Twitter. Na visão do COB e da CBJ (Confederação Brasileira de Judô), o episódio custou uma medalha para o Brasil no evento. No Pan de Toronto, uma foto de maiô colocou em evidência Ingrid Oliveira, de 19 anos, dos saltos ornamentais. Ela mesmo admitiu, após errar uma tentativa de salto e sair chorando da piscina, que leu e se entristeceu com os comentários enviados a seu perfil no Instagram (rede de compartilhamento de fotos).

Em entrevista ao iG, publicada no dia 8 de julho, Marcus Vinícius Freire, superintendente do COB, expôs a preocupação da entidade com o uso de redes sociais e a intenção de aplicar ferramentas para usar a internet a favor dos atletas, e não como disseminador de polêmicas. Na sexta-feira, em encontro com jornalistas para avaliar a participação do Brasil no Pan de Toronto, o assunto foi rapidamente citado por ele, destacando a participação de um conselho composto por técnicos e ex-atletas para ajudar na elaboração desse código de conduta. "Temos algumas preocupações com redes sociais e exposições de patrocinadores de atletas", reforçou.

Na manhã de sexta-feira, quando a acusação contra Thye foi divulgada pela polícia de Toronto, o assunto gerou incômodo tanto em Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, quanto em Freire a cada questionamento da imprensa. Àquela altura, diziam ter poucas informações a respeito. Mais tarde, a entidade se posicionou por meio de nota oficial. "O COB exige de seus atletas um comportamento impecável, lembrando-lhes sempre que, quando viajam ao exterior, representam o seu país", diz parte do texto.

Atingir a meta de figurar entre os dez melhores no quadro de medalhas dos Jogos do Rio passa também, na visão de dirigentes, em dar exemplo fora de competição e colecionar apoio ao invés de situações desconfortáveis. Por isso, a acusação de violência sexual em Toronto pode ter impacto na ideia de ter mais controle sobre o que o comportamento dos atletas na reta final deste ciclo olímpico.

Reportagem de Thiago Rocha

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