Pugilistas cubanos vão ao McDonald's sonhando com o ouro

Boxe é um dos símbolos do sucesso olímpico da Revolução Cubana

Por O Dia

Rio - O esporte é um dos muitos orgulhos da amada e odiada Revolução Cubana, que começou em 1959 e até hoje desperta sentimentos distintos ao redor do mundo. Ideologias à parte, é preciso destacar alguns fatos incontestáveis. Como o desempenho esportivo dos cubanos, historicamente superior ao dos brasileiros, por exemplo. Apesar de todos os muitos problemas enfrentados pela ilha, o país continua sendo a principal potência olímpica latino-americana, e a segunda maior as Américas, atrás apenas dos Estados Unidos.

E não é exagero dizer que o esporte em Cuba é um dos filhos da Revolução que apostou na educação - e no desporto ­- como instrumento de transformação social. Basta ver que antes de Fidel Castro tomar o poder das mãos de Fulgencio Batista, em 17 edições do Jogos Olímpicos, de 1896 a 1956 (60 anos) Cuba havia conquistado apenas 13 medalhas, 12 delas na esgrima, graças ao inesquecível Ramón Fonst. Nos últimos 52 anos (e 12 Olimpíadas), este número cresceu impressionantes 1.400%: foram nada menos que 196 medalhas. 

Pugilistas cubanos vão ao MC Donald's sonhando com o ouroCaio Barbosa / Agência O Dia

E se a esgrima era a estrela solitária do esporte cubano da era pré-Fidel, o boxe, uma das paixões de líder comunista ao lado do beisebol, se tornou referência em todo o mundo e um orgulho nacional. Até hoje, nenhuma outra nação tem tantas medalhas de ouro nas Olimpíadas - e campeonatos mundiais - como Cuba.

A força do boxe cubano chama tanto a atenção quanto simplicidade das suas estrelas. Na Vila dos Atletas da Rio-2016, poucos são os astros que circulam na zona intermediária, a que a imprensa tem acesso. Nesta segunda, algumas das estrelas da delegação cubana, como o boxeador Roniel Iglesias, medalha de ouro em Londres, e Julio Cesar de la Cruz, "A Sombra", considerado o atual melhor boxeador do mundo pela Associação Internacional de Boxe Amador (AIBA), chamavam a atenção da equipe do DIA degustando um lanche do MC Donald's, um maiores dos símbolos dos Estados Unidos, sem nenhuma problema de consciência por consumirem um dos "símbolos do imperialismo ianque".

"A gente come sempre. Em Cuba não tem MC Donald's(risos), mas em todo o mundo tem. E a gente compete no mundo todo. Não é uma novidade. Talvez seja para vocês, brasileiros, ver a gente comer no MC Donalds. Para nós, não", brinca Julio Ordogui, psicólogo da equipe de boxe cubana.

Cansados de ter de dar declarações sobre a política cubana em vez de esporte, os pugilistas estavam mais interessados nos sanduíches do que em polêmicas sobre problemas recorrentes na ilha. A preocupação na Vila dos Atletas é apenbas representar uma escola que tem como ícones Félix Savón, tricampeão olímpico e hexacampeão mundial, Teófilo Stevenson, tricampeão mundial e tricampeão olímpico, e Ángel Herrera, bicampeão olímpico e tricampeão mundial.

"Temos muito orgulho do boxe cubano e de representar nosso país. Sabemos da importância do esporte em Cuba e queremos fazer o melhor, ainda mais no Brasil, um país que tem tanto carinho por nós", disse Iglesias, ao lado dos também boxeadores Julio de la Cruz, Joahnys Argilagos e Yosvany Veitía

Assédio sem fim

O sucesso dos boxeadores cubanos e sua importância para o regime cubano é tanta que, claro, despertam o constante interesse dos EUA, muito mais pela questão política, com a possibilidade de enfraquecer um dos pilares da Revolução Cubana, do que por razões esportivas. No Pan-2007, seduzidos por milhares de dólares oferecidos por americanos e alemães, os pugilistas Erislandy Lara e Guillermo Rigondeaux abandonaram a delegação e foram tratados como desertores por Fidel Castro.

A delegação cubana, no entanto, prefere deixar a polêmica fora dos ringues. E o assedio americano fora das manchetes.

"Você é brasileiro, não é? Não acredito que você queira criar polêmica à toa. Não há essa necessidade. Somos cubanos, temos orgulho de ser. Somos filhos de Teofilo Stevenson", disse Julio Ordogui, referindo-se à lenda do boxe que recusou milhões de dólares para se profissionalizar nos EUA. "O que é um milhão de dólares perto de 8 milhões de cubanos que me amam? Não quero ser profissional e tratado como mercadoria", dizia Stevenson.

A recente visita do presidente Barack Obama a Cuba, bem como a ida de Raul Castro aos EUA ainda não foi sentida pelos pugilistas, segundo Ordogui.

"Para a gente, mudou muito pouca coisa. Certamente teremos mudanças no futuro. Não sabemos quais, mas esperamos que sejam boas para todos os cubanos. Mas a gente não está mesmo preocupado com isso neste momento. Queremos apenas representar nosso país e que ele esteja sempre no alto do pódio", completou Ordogui.

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