Aversão e eleição detonam dólar

O receio de que o Federal Reserve (Fed) terá de iniciaro processo de alta da taxa básica de juros já no segundo trimestre de 2015 ganhou contornos mais dramáticos ontem

Por O Dia

E a ele juntou-se o aumento das tensões geopolíticas para compor um retrato perfeito do fenômeno chamado pelos gestores de “aversão global a risco”. Por força da conjugação dos dois fatores, cresceu a procura por títulos do Tesouro americano e por dólar. Frente ao real, a tendência de valorização do dólar foi vitaminada pelo pessimismo dos investidores acerca das chances dos candidatos de oposição à Dilma Rousseff. O dólar saltou ontem 1,95%, vendido a R$ 2,4299. Na máxima do dia, chegou a R$ 2,4312, preço não visto desde fevereiro. Em setembro até ontem, a moeda americana acumulada alta de 8,53%.

Só esta alta de 8,53% do dólar nesses 19 dias úteis de setembro será capaz de ter um impacto direto sobre o IPCA de 0,43 ponto, já que, pelos cálculos do Banco Central, cada 10% de desvalorização cambial agrega 0,50 ponto ao índice oficial de inflação. Ou seja, se a alta do dólar não for revertida, ao invés de IPCA de 6,3% — a última projeção das instituições participantes da pesquisa Focus é de taxa de 6,32% para os próximos 12 meses e de 6,28% para 2015, feita levando-se em conta estimativas defasadas para o câmbio, de R$ 2,34 para o fim de 2014 e de R$ 2,45 para o fim de 2015 — o índice já estará apontando para 6,73%.

O teto da banda inflacionária, de 6,5%, já estaria estourado, requerendo elevações adicionais da Selic para, como gosta de frisar o Copom, atenuar os efeitos secundários sobre o conjunto de preços da depreciação cambial. Vale dizer: ampliar a desaceleração econômica e reduzir o mercado de trabalho para que as empresas não repassem para os preços finais a alta dos custos imposta pela valorização do dólar.

A necessidade de subir mais ainda a Selic se agrava pela suspeita de que o BC de um segundo mandato de Dilma não faria toda a alta requerida para sedar as sequelas cambiais sobre o IPCA. Pista limpa para a decolagem dos juros futuros negociados na BM&F. A taxa para janeiro de 2017 pulou de 11,84% para 11,95%. E o contrato para janeiro de 2021 avançou de 11,73% para 11,84%.

A onda externa de aversão a risco fez o mercado de câmbio se sentir amparado em sua empreitada contra o BC. Apesar da louvação das virtudes do câmbio flutuante, o mercado não aprecia a total liberdade. Precisa de parâmetros mais ou menos rígidos a serem desafiados. E que o BC lute para defender esses limites. Causa estranheza e desconforto quando a autoridade assume um desdém olímpico. Foi o que aconteceu de 8 a 23 deste mês: ele apenas observou distraidamente o dólar saltar de R$ 2,24 para R$ 2,40.

Na quarta-feira, aumentou de seis para 15 mil o volume do seu leilão diário de swaps cambiais destinados a rolar os que serão liquidados no dia 1° de outubro, mas não definiu uma banda de flutuação da moeda. E os investidores querem saber se o novo regime é de liberdade vigiada ou incondicional. E o dólar sobe no grito, mesmo sem respaldo de um volume expressivo de negócios.

O poder de dissuasão de novas altas exercido pela decisão do BC de rolar integralmente o lote de US$ 6,677 bilhões em swaps que vencem no dia 1° parece já ter-se esgotado. Terá de ir além se quiser estabelecer o R$ 2,40 como teto. Precisará ampliar a oferta de novos swaps. A cota diária, de segunda a sexta-feira, é hoje de 4 mil novos títulos, totalizando a colocação de US$ 1 bilhão por semana. Vai ter de aumentá-la até o mercado se dar por satisfeito, correndo o risco de antecipar do fim para o meio de outubro o rompimento do limite psicológico de US$ 100 bilhões de swaps em estoque. É o preço que pagará para esfriar a caldeira cambial.

A ojeriza internacional ao risco não teve ontem um único e grande fato detonador. Os medos foram difusos: o de que o Fed tenha de acompanhar a prometida decisão do Banco da Inglaterra de elevar a taxa básica; o de que tenha procedência o alerta iraquiano de que o Estado Islâmico prepara ataques terroristas aos metrôs de Paris e Nova York; o de que o partido de Wladimir Putin vote favoravelmente projeto que confisca bens de estrangeiros como compensação a atitudes similares feitas contra propriedades russas no Ocidente.

De concreto, dois indicadores americanos heterogêneos que quase se autoanularam: o número de novos pedidos de auxílio-desemprego cresceu em 12 mil na semana passada, para 293 mil, quando os especialistas esperavam alta para 300 mil. E as encomendas de bens duráveis tombaram 18,2% em agosto, mais do que os 17,5% previstos pelos economistas. Para aumentar a inquietação dos mercados, na maratona de pronunciamentos de dirigentes do Fed que se segue à reunião regular do comitê de política monetária, ontem foi a vez de tomarem a palavra os presidentes das regionais de Dallas e Atlanta.

O primeiro, Richard Fisher, mandou recado claro: enquanto o mercado espera alta de juros em algum momento entre o início da primavera e o fim do verão do ano que vem, pode ser que o Fed tome a decisão “mais cedo do que mais tarde”, ou seja, no começo da primavera. Traduzindo: a alta está mais para março do que para junho de 2015. Atenuando a excitação causada por Fisher, Dennis Lockhart, de Atlanta, frisou que um aumento dos juros já no início do próximo ano pode ser “prematuro e prejudicial” para a economia. Mas o mercado preferiu dar mais ouvido à Fisher do que à Lockhart.

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