Cheiro de mofo

A Turquia sempre foi o parceiro frágil, mas estratégico da Otan. Por essas e outras, país está no coração das preocupações ocidentais

Por O Dia

O medo espalhou-se pela Turquia, um estratégico país emergente que sempre fez ponte entre o Ocidente e o Oriente, entre o mundo islâmico e o não islâmico. O prêmio Nobel de Literatura (2006) Orhan Pamuk , autor do “O Meu nome é vermelho”, descreveu esta atmosfera em uma entrevista publicada no jornal turco “Hürriyet”, no dia 7 deste mês. “Eu vejo todo mundo com medo. A liberdade de expressão nunca foi tão precária”, disse Pamuk.

“Muitos dos meus amigos me contam que este e aquele jornalista perdeu o emprego. Até mesmo jornalistas próximos ao governo estão sendo assediados”, disse o romancista de 62 anos, que acabou de lançar, na Turquia, o livro “A Strangeness in My Mind”, sobre a opressão sofrida pelas mulheres de seu país.

A Freedom House, organização que monitora a democracia, rebaixou a Turquia no início deste ano: de país “com liberdade parcial” passou a país “sem liberdade”. No domingo 14 dezembro, a polícia deu uma batida no jornal “Zaman”, o mais lido do país, e em um grande canal de televisão, levando para a cadeia mais de 20 jornalistas, incluindo o editor-chefe do diário e o diretor da estação de TV.

Erdogan qualificou a mídia social como a “pior ameaça à sociedade”. Mais de 50 mil websites foram banidos. Em março, o governo bloqueou o acesso ao YouTube e ao Twitter até a Justiça determinar que isso violava a liberdade de expressão. Isso tudo manchou a reputação da Turquia como um moderno Estado islâmico.

Orhan lamenta que hoje, a entrada da Turquia na União Europeia esteja mais longe do que nunca por causa do caminho que o presidente Recep Tayyip Erdogan tem adotado nos últimos tempos, mimetizando o comportamento dos sultões do século 16 na sua tentativa de construir uma “Nova Turquia”, uma nação cada vez mais islâmica na qual projetos de construções monstruosos são erguidos para simbolizar prosperidade e exaltar a posição do presidente-autocrata.

No ano passado, o mundo assistiu aos maciços protestos que começaram com manifestações de ambientalistas e se ampliaram, contaminando o resto: a revolta teve como gancho a derrubada de árvores e extinção de espaços abertos e democráticos que cederam lugar a shopping centers, estradas, arranha-céus envidraçados e a 20 mil mesquitas subsidiadas pelo governo.

Os conservadores turcos começaram a ganhar evidência nos últimos anos. O ideal de Mustafa Kemal Atatur — o fundador da moderna e secular República turca, há 100 anos, após o colapso do Império Otomano e o fim da I Guerra Mundial — vem perdendo espaço para o ideal neo-Otomano do “sultão” Erdogan.

Com seu culto à personalidade e tendência autoritária, o presidente, de 60 anos, disse recentemente que as mulheres não estão em pé de igualdade com os homens. “Nossa religião define uma posição para a mulher: a maternidade”, disse.

Erdogan tornou-se primeiro ministro do país em 2003 e ficou neste cargo até agosto deste ano, quando foi eleito presidente, até então uma posição simbólica, mas que ele transformou para aumentar seus poderes, acalentando o sonho de ficar mais 10 anos à frente da Turquia.

Há tempos o governo de Erdogan, com raízes no islamismo, tem sido acusado de corroer os princípios seculares do país. Visto como cada vez mais autoritário, ele repetidamente tem atacado jornalistas mulheres que o desagradam.

A verborragia machista na política turca teve um capítulo bizarro recentemente com o vice primeiro ministro Bülent Arinç afirmando que as mulheres não devem rir alto em público: na “perigosa” mídia social, mulheres turcas fizeram uma criativa campanha gravando vídeos nos quais apareciam dando gargalhadas em alto e bom som. Foi um sucesso.
No dia 28 de novembro o Papa Francisco foi o primeiro convidado estrangeiro de peso a visitar o presidente em seu polêmico palácio, que ele construiu sob protestos (gastando, segundo a mídia turca, US$ 615 milhões).

Esta nação de 80 milhões de habitantes teve um robusto crescimento econômico durante os últimos 12 anos de governo de Erdogan: no ano passado, quanto a Europa crescia zero, a Turquia crescia 4%. Sob o seu governo, a renda per capita saltou de US$ 3.500, em 2002, para US$ 11 mil em média. Isso, entre outros fatores, pavimentou a longa negociação de entrada da Turquia na União Europeia, que começou há muito tempo, em 1987, mas agora congelou. A Polônia pediu o ingresso em 1997 e entrou para o bloco europeu em 2004. A Croácia, que entrou com pedido em 2003, ingressou na União Europeia em 2013.

A controversa relação da Turquia com a Europa e com o Ocidente tem um símbolo forte: sua participação da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). A Turquia sempre foi o parceiro frágil, mas estratégico: é o único país da Otan a fazer fronteira com a região atacada pelo grupo Estado Islâmico (EI). Uma futura paz na vizinha Síria, por exemplo, só pode ser alcançada com a colaboração turca. Por essas e outras, a Turquia está no coração das preocupações ocidentais. E o país de Erdogan está prestes a assumir a liderança do G-20, grupo que prometeu na última reunião em Brisbane, na Austrália, encampar uma luta contra a corrupção.

No dia 14 de novembro , o jornal “Hürriyet” publicou um artigo sobre a mudança da política externa turca. Segundo um novo estudo de um instituto de pesquisas finlandês, o afastamento de Ancara com relação ao Ocidente, para uma guinada mais para o Oriente, deixou os líderes dos Estados Unidos e da Europa confusos. Todos se perguntam: para onde caminha a Turquia?

No século 19, o combalido Império Otomano era apelidado de “o velho homem doente da Europa”. Em seguida Ataturk apagou essa imagem criando a moderna Turquia secular. Agora, Erdogan propõe uma “Nova Turquia” que cheira a mofo.