Haitianos e cariocas que ajudaram a reconstruir o país fazem ato hoje

Há cinco anos um terremoto matou mais de 200 mil pessoas e deixou outras 250 mil feridas, a maior tragédia vivida pelo Haiti

Por O Dia

Rio - Às 17h desta segunda-feira, dezenas de haitianos que vivem no Rio se unirão a cariocas para fazer muito barulho na sede da ONG Viva Rio, na Glória. É a forma deles de expressar a dor e lembrar o que, há cinco anos, aconteceu no mesmo horário, a maior tragédia natural que aquele país já conheceu. Em 2010, um terremoto matou mais de 200 mil pessoas, deixou outras 250 mil feridas e uma chaga ainda aberta nas vidas dos demais sobreviventes. Nesse período, a ajuda de voluntários cariocas foi fundamental na recuperação do país e da dignidade das pessoas.

Na tarde fatídica, o gonçalense e mestre de capoeira Flávio Saudade, 37 anos, cortava o cabelo quando a casa começou a tremer. “Tudo caiu sobre mim. Fiquei no batente da porta pedindo a Deus que me desse mais uma chance de ver a minha filha. Foram segundos que mudaram a minha vida”, lembrou.

Terremoto deixou milhares de mortos e feridos. Até hoje o país tenta se recuperarErnesto Carriço / Agência O Dia

Nos dias seguintes, ele e outros cariocas racionaram comida e água, além de dormir no quintal com mochilas e passaportes prontos para escapar antes de outro tremor. “Víamos feridos e centenas de corpos sem resgate. Senti que, se Deus atendeu ao meu pedido, era a chance de fazer algo por aquelas pessoas.”

Foi assim que, em meio a toneladas de escombros e dor, reconstruiu das cinzas o projeto de ensinar capoeira para crianças. O número de alunos pulou de 300 para mais de 530, que conseguiram lidar com o trauma através da luta. Agora o projeto está sendo exportado para a República do Congo, na África. “As aulas eram uma forma de superar a realidade. Ver crianças com roupas rasgadas, mas um sorriso no rosto me ensinou que a esperança de futuro é possível, independentemente da situação.”

A mesma sensação teve o arquiteto urbanista Baltazar Morgado, 49. Ele chegou ao Haiti quatro dias após a tragédia e lá ficou por três meses. Nesse período, ajudou na criação de uma fazenda modelo para sobreviventes, escavou escombros, distribuiu comida, resgatou corpos e ajudou em sepultamentos, além de melhorar as condições de vida com banheiros químicos e a limpeza urbana. “Fiz tudo o que podia. Para reconstruir o país, é preciso investimento maciço. Mas a capacidade de recuperação daquele povo me marcou de um jeito que não parei de ajudar. Tenho mais alegrias do que tristezas para contar depois disso”, garante Baltazar, que faz o mesmo trabalho na Região dos Lagos.

ONG homenageia vítimas e cria site para sobreviventes

A tragédia fez o fotógrafo do DIA Ernesto Carriço embarcar num projeto pessoal de ajuda aos haitianos. Durante três anos, registrou a capacidade do povo de se reinventar e a vocação turística para melhorar a economia do país. “São pessoas que não precisam de pena, mas de investimento. O país tem um potencial incrível para sair da crise”, avaliou.

O diretor da ONG Viva Rio, Rubem César, estava lá na época do terremoto e continua indo ao país mensalmente ajudar. Ele analisa que o processo de reconstrução está só no começo. “São muitos problemas de ordem internacional que fazem o trabalho ficar mais lento. Mas o Brasil teve papel fundamental, principalmente na implantação de projetos para a melhoria das condições humanas”, disse.
Hoje, o Viva Rio promove o ‘barulhaço’ e a homenagem às vítimas, além de lançar site com orientações aos haitianos que passaram a viver no Brasil.

EXPERIÊNCIA

ERNESTO CARRIÇO, fotógrafo do DIA

“Jamais imaginei presenciar algo tão impactante”

“Quando o terremoto ocorreu, a vontade de ver de perto a situação era grande. Viajei em um voo da Força Aérea Brasileira com a promessa de ficar poucas horas. O avião levava, além de jornalistas, suprimentos para os sobreviventes. Ao descer no aeroporto, o impacto foi grande: centenas de pessoas ficavam ali na esperança de fugir do desastre ou aguardando ajuda. Em 24 anos de profissão e com a experiência de cobertura em grandes tragédias, jamais imaginei que pudesse presenciar algo tão impactante. A dimensão do terremoto era gigante, mas a vontade do povo de superar a dor era ainda maior.

A esperança dos haitianos para superar a tragédia é motivação para voluntários de diversos paísesErnesto Carriço / Agência O Dia

Decidi que deveria registrar não só a catástrofe, mas a força do povo haitiano, a beleza além da miséria e a capacidade de se reerguer. Ali existe a crença de que o Haiti vai se transformar numa nação capaz de ajudar o resto do mundo. Viver aquela tragédia mudou a minha visão sobre o mundo e a vida. Hoje não me sinto capaz de reclamar de nada, após ver que pessoas numa situação dramática conseguem manter o sorriso e a esperança de uma vida melhor.”



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