Milton Cunha: Dois lados da moeda

Quando preto dá para dançar e bater tambor, meu amor, é 220 volts e acabou...

Por O Dia

Rio - A Praça XV é fascinante porque muito do Rio de Janeiro passou e passa por aquele pedaço de cidade. Séculos de vai e vem, encontro de índios, brancos e negros, decisões políticas que até hoje repercutem. Quando soube do Teatro na Rua que o queridérrimo Prefeito Dudu Paes estava patrocinando, me mandei pra lá. Direção do projeto da divina e chic Regina Miranda. Estavam desmontando a feira no meio da praça, homens que fecham as mesas, carregam pro caminhão e falam alto. Era o espaço público vivo, sem maquiagem, sem parar para receber os atores, que teriam que se adaptar ao cotidiano real e não o contrário.

Pois foi aí que começou a encenação, competição entre a arte que quer prender a atenção do espectador e a pulsação urbana. Skatistas que faziam misérias em saltos e estripulias de suas manobras radicais. Subiu a música do século XIX, iluminação forte, as janelas abriram, mulheres com leques, homens com taças de champagne, visual lindo. Depois o segundo quadro, com escravos no chão. Uma modinha meio comportada embalava os passos do balé negro, e eu achei que podia ser mais bafônico este número da herança africana, porque quando preto dá para dançar e bater tambor, meu amor, é 220 volts e acabou. Mas do outro lado da praça vinha um insistente batuque; e, hipnotizado, atravessei, passando por entre a penumbra do desmonte da feira, e naquele transe eu sabia que estava refazendo o caminho que muitos brancos misturados, como eu, já fizeram: atraídos pelo ritmo, abandonamos a cena oficial, patrocinada pelo Estado, e nos deixamos possuir pela manifestação do povo, verdadeira, sem apoio de verbas, e talvez por isso mesmo mais avassaladora.

Cheguei embaixo do Arco de Teles: uma roda de 50 pessoas tocava um samba de roda poderoso, e como a iluminação vem de baixo para cima, as sombras dos manifestantes dançavam nas curvas do teto daquele histórico Arco. Era mágico, fortíssimo, encantador. Mulheres com panos amarrados; corpos com blusas de algodão barato e deslumbrantes saias de chita. Eles repetiam o seguinte: “Pode chorar, meu amor, pode chorar se quiser, o homem só pode viver, pelo menos com quatro muié — uma pra dentro de casa, uma pro olho da rua, a feia pra noite escura, a bonita pra noite de lua”. Era o grupo Reconca Rio, em seu abençoado resgate de ritmos dos escravos. A cara de um Rio que amo. Claro que tem o Cais da Imperatriz Leopoldina, mas sempre que eu tiver que optar entre o salão principesco e a fuzarca popular,vou ser feliz com o povo que só tem dinheiro para a cachacinha.

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