Fernando Scarpa: Mortes ideológicas

Os milhões de óbitos anônimos e diários na África, as vítimas da pobreza e da fome também merecem reverência

Por O Dia

Rio - O calor infernal domina a cidade e desanima o cidadão logo no início do ano. O maçarico está ligado! Até Deus, dizem, esqueceu o Rio de Janeiro no forno. Está quente demais. Já na França faz frio, mas o humor do povo também se esquentou com a chacina à redação da revista ‘Charlie Hebdo’. Nem sempre o calor do povo vem da temperatura, também pode vir da erupção dos acontecimentos. Aqui, na Terra Brasilis, o fogo vem de ambos os lados.

O mundo se choca diante das mortes com visibilidade internacional, mas o mesmo deveria acontecer com as sem visibilidade. Os milhões de óbitos anônimos e diários na África, as vítimas da pobreza e da fome também merecem reverência e destaque — assim como o assassinato dos chargistas em Paris.

Países e presidentes se comovem oferecendo ajuda e segurança à França, mas não choram em público, nem se dispõem a socorrer a fome dos irmãos negros. Ao que tudo indica, o ocorrido é tratado como rotina, questão de destino — ou maldição — daquele país.

No Brasil, a temperatura, aliás, é também africana. Falta água nas torneiras, e o esgoto é a céu aberto. Parte da população, os moradores da Zona Sul, entra em contato com essa realidade através da mídia. São rápidos momentos nos telejornais e nas manchetes dos jornais. A proposta é ajudar a população da periferia. Sim, alguns precisam do sofrimento alheio, ganham com ele. Desde o ‘Big Brother Brasil’ se vende a realidade da vida como produto. Há sempre quem patrocine.

Mas nada disso se passa sob a Torre Eiffel: as mortes daqui são lugar-comum. Ocorrem nas ruas, no meio da cidade, em frente à polícia, e não são menos violentas que as de lá. Óbvio, compare, não há diferença: elas também são ideológicas. Se em Paris há a busca pela liberdade de expressão, aqui a batalha é pélo direito de ir e vir — sem morrer no caminho. São ideologias de liberdade. Qual é a diferença? Melhor olhar para o próprio umbigo, então.

Fernando Scarpa é psicanalista

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