Julio Ludemir: A política nas favelas

Não é preciso ser muito perspicaz para perceber duas curvas opostas nas estatísticas cariocas

Por O Dia

Rio - Não é preciso ser muito perspicaz para perceber duas curvas opostas nas estatísticas cariocas. A primeira foi a ascensão do tráfico de drogas nas favelas a partir da década de 1980. A segunda foi a quase extinção da política nessas comunidades. Os traficantes se tornaram donos dos morros e as associações de moradores, seus interlocutores junto ao poder público. Não foram poucos os presidentes que se elegeram com a missão de pagar o ‘arrego’ do batalhão.

Há muitas outras questões para a saudável renovação da vida política nas favelas, mas não se pode descartar a importância do processo de pacificação para a emergência de lideranças comunitárias cuja legitimação não se deu por causa do vínculo com o tráfico. Ainda que o projeto das UPPs esteja moribundo, é muito mais fácil fazer política sem a obrigação de desenrolar na boca uma decisão que não agradasse ao ‘patrão’. Com todas as críticas ao projeto, ele há de deixar esse legado.

Essas articulações políticas têm mais visibilidade quando ocorrem os excessos da PM, a única instituição brasileira que ainda não registrou que tanto a escravidão quanto a ditadura militar acabaram há uma larga quadra do tempo. Os exemplos são numerosos de moradores se reunindo para questionar políticas apresentadas como civilizatórias, como a instalação de relógios de luz e a regulação fundiária. A própria luta pela volta do baile funk, historicamente associado ao tráfico, hoje é uma reivindicação madura pelo inalienável e universal direito ao lazer.

A recente eleição de André Constantino para a presidência da Associação de Moradores da Babilônia, que pôs fim a reinado que já durava 20 anos, também é reveladora dessa nova realidade política. Até a renhida vitória (deu para contar nos dedos a diferença dos votos), houve inúmeras reuniões em torno de ampla frente de lideranças e projetos. Um dos cuidados da Chapa Amarela foi ter quadros jovens. Sem vícios e dependências do passado. Isso há de ser muito saudável para a renovação política de toda a cidade.

Julio Ludemir é jornalista e organizador da Flupp

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