Luiz Antônio Simas: Cambono do fim

O que se espera do cambono é a modéstia de reconhecer que não é dele o protagonismo

Por O Dia

Rio - Dia desses me perguntaram como eu gostaria de ser apresentado em um debate sobre a cidade do Rio de Janeiro. Fiquei na dúvida entre historiador, professor, curimbeiro, filho da mãe, branco azedo, careca, barrigudo, cachaça, vinte e dois, vira-latas, imperiano, tocador de rum, péssimo cavaquinista, esforçado jogador de sueca, teórico do jogo do bicho, pau-d’água, ex-atleta de cinco contra um, fracassado jogador de ronda e reservista da pátria. Sou também torcedor do Bafo da Onça, da Emilinha e do Cordão Encarnado. É tudo verdade. E sou também, é claro, cambono de festa do livro. Explico aos leitores a última função.

Acontece que, no ano passado, o camarada Raphael Vidal — que o meu compadre Eduardo Goldenberg chama de “maluco fundamental” da cidade — me convidou para ser um dos curadores do Fim de Semana do Livro no Porto; um encontro realizado no Morro da Conceição e arredores. Topei, mas preferi deixar de lado o ‘curador’ e me definir como um simples cambono da gira literária. De cambonaria, modestamente, entendo um pouquinho mais. O cambono de terreiro de santo, afinal, bate tambor, acende o charuto do caboclo, prepara o banquinho para a consulta dos velhos, abre o marafo dos exus e cuida, dentro dos seus limites, para que a roda seja formosa. Não pertence a ele, porém, o segredo do transe e o sabor da fala das entidades.

O que se espera do cambono é a modéstia de reconhecer que não é dele o protagonismo, e o orgulho suave de se colocar a serviço do batuque propiciador da dança e dos rituais misteriosos de celebração da vida. Faço este registro aqui (e já lanço o convite aos leitores) porque no próximo fim de semana ocorrerá mais um Fim de Semana do Livro no Porto. Dividirei a cambonaria com o comandante Vidal, a Giovanna Dealtry, o Ricardo Riso e o Zé Gustavo. Dando moral para o evento, na condição de produtor, o Miguel Pinheiro, nosso Bartolomeu Dias dobrando o Cabo da Boa Esperança.

A proposta do babado segue firme: fazer uma festa do encontro e um ritual de celebração da vida pela palavra; falando das encruzilhadas, margens, amores, crimes, subúrbios, praias, bailes, bossas, festas e frestas cariocas. Longe dos clichês e louvando um Rio juramentado nos secretos da pedrinha miudinha da Aruanda; aquele que subverte na gira da história a escuridão dos tumbeiros, a caça aos índios tamoios, a ferida aberta pelas chibatas, os códigos criminais, os devaneios da cidade cosmopolita, as covas rasas e os camburões. Que venha o fim.

E-mail: luizantoniosimas67@gmail.com

Últimas de _legado_Opinião