Ruy Chaves: O insuperável Cordeiro

Tirar selfie abraçadinha com Cordeiro era objeto de desejo de muitas garotas. Os garotos se roíam de inveja

Por O Dia

Rio - Nunca houve uma pessoa como Cordeiro. Dizem as línguas ferinas que ele nasceu de banho tomado, perfumado e com roupas de grife, acenando para médicos e enfermeiras, já com todos os dentinhos, e que suas primeiras palavras foram: “Oi, Mami, você é tão linda quanto eu!”

Sempre Príncipe na vida, Cordeiro nunca precisou usar fraldas. Aos 5 anos, fluente também em inglês, francês e mandarim, ganhou sua primeira Olimpíada de Matemática: dominava todas as operações mais rapidamente que qualquer computador, especialmente porcentagem. Aos 12 anos, fazia tudo com perfeição: cantava, dançava tango, tocava piano e harpa, era campeão no bridge, no pôquer e no golfe, declamava poemas em italiano, já lera em grego todos os ‘Diálogos’ de Platão. Tirar selfie abraçadinha com Cordeiro era objeto de desejo de muitas garotas. Os garotos se roíam de inveja.

Excepcional aluno, Cordeiro graduou-se no Japão e concluiu mestrado na Alemanha. Carismático, com um olhar muito estranho, orador insuperável, conseguia provar o improvável, convencer todos os céticos, andar sobre as águas, subir cachoeira a nado, enxergar na escuridão, alimentar-se de luz. Era mais veloz que bala de revólver, mais potente que locomotiva, transformava rato em coelho e urubu em arara-azul. Insuperável, o Cordeiro! Tudo em que tocava se transformava em ouro e estava sempre envolvido em projetos extraordinários que movimentavam incríveis volumes de recursos, em parceria com países, empresas e altas autoridades públicas e privadas. Cordeiro possuía jatos, helicópteros, iates e carros de luxo e protegia uma legião de fiéis e apaixonados seguidores que o viam como o novo Messias, davam sua vida e sua honra por Ele. Era não apenas o líder, mas o Mestre Insuperável que, com sua sombra protetora, trazia o céu para os amigos e o inferno para os que se opusessem a seus caminhos.

A última imagem de Cordeiro na televisão surpreendeu a civilização ocidental. Jurando inocência e afirmando ser o mais honesto dos homens, ele estava sendo preso na Lava Jato. Depois se soube que na prisão, antes de dormir, Cordeiro tirava sua roupa de cordeiro e revelava a identidade: um lobo mau e faminto, bem disfarçado desde que nasceu. Vade retro, Satanás! Panta rei.

Ruy Chaves é diretor da Estácio e da Academia do Concurso

Últimas de _legado_Opinião