Defensor público vai processar Estado por conta de ação da polícia em hospital

Severino Ramos tentou por três horas entrar na unidade com sua esposa, que precisava urgente de uma cirurgia cardíaca

Por O Dia

Rio - O defensor público Severino Ramos, de 53 anos, vai entrar com uma ação civil pública contra o estado do Rio de Janeiro por conta da ação policial na Casa de Saúde Pinheiro Machado, em Laranjeiras. Ele tentava acessar a unidade de saúde com sua esposa, Maria de Lourdes, também de 53 anos, que vinha em uma ambulância transferida do Hospital Sao Lucas, em Copacabana, para uma cirurgia de urgência do coração quando fui impedida por policiais militares de entar no hospital.

Defensor público Severino Ramos vai processar estadoSeverino Silva / Agência O Dia



De acordo com Severino, os manifestantes estavam abrindo caminho para a ambulância, mas, quando chegou em frente à clinica, mesmo com a sirene ligada, a PM não deixou o veículo entrar no local por três vezes, alegando que uma operação estava sendo realizada na área para a segurança da população. Somente depois de muito esforço a ambulância no local.

"Minha esposa precisava de uma cirurgia urgente. Ficamos de nove da noite até uma hora da manhã tentando passa pelo bloqueio da polícia. Quando conseguimos entrar na unidade, fomos recebidos com bombas de gás lacrimogênio por uma polícia que a mando do governador Sérgio Cabral não respeita nenhuma área privada."

O defensor disse que presenciou a ação da polícia na hora em que ela invadiu a unidade hospitalar atrás de manifestantes que entraram dentro da clínica para se proteger da violência. "Mesmo com os funcionários da clínica gritando que aquela área era particular e que, portanto, não tinham autorização para entrar, os policiais invadiram a clínica e começaram a jogar spray de pimenta dentro do banheiro do primeiro andar da clínica sem distinguir quem era manifestantes, funcionários ou pacientes.

Ele destacou que por conta das bombas de gás lançadas e o spray de pimenta, não só sua esposa, mas todos os pacientes correram riscos. "O cheiro do spray de pimenta foi sentido em todo setor do CTI, no andar de cima, e por causa da polícia a minha esposa foi internada pior do que chegou. Vou processar o estado do Rio de Janeiro, pois o que aconteceu, além de configurar omisão de socorro, colocou em risco a vida de todos os pacientes dessa unidade. O estado vai ter que se responsabilizar pela saúde da minha esposa, que foi agravado em decorrência da ação policia, que fez uma bárbárie dentro dessa clínica", disse.

Inspetores da Polícia Civil estiveram na casa de saúde solicitando as imagens para que o caso seja investigado.

Funcionários trabalham no entorno do Palácio GunabaraSeverino Silva / Agência O Dia

Direção do hospital confirma invasão

Os diretores responsáveis pela Casa de Saúde Pinheiro Machado confirmaram que a unidade foi invadida pelos policiais e repudiaram a ação. "É inegável que bombas de gás e spray de pimenta foram usados no corredor da clínica". Segundo eles, haviam cerca de 60 internados no momento da confusão.

Ainda de acordo com os gestores, os manifestantes que estavam dentro da clínica eram entraram pedindo atendimento hospitalar por conta de intoxicação do gás e que muito deles estavam sendo atendidos na hora que a polícia entrou.

A direção do hospital forneceu as imagens pedidas pela Polícia Civil e espera que o caso seja investigado.  Segundo a direção, por sorte nenhum paciente apresentou piora por conta das bombas de gás lacrimogênio e spray de pimenta. Entretanto, ela pensa em marcar uma reunião com o poder público para que a polícia nesse tipo de situação faça o isolamento da cliínica e que não proiba ambulâncias de terem acesso à unidade, ao contrário do que foi feito na noite anterior.

?Manifestante internado com traumatismo craniano

Cerca de 20 manifestantes procuraram abrigo na Casa de Saúde Pinheiro Machado, localizada em frente ao Palácio Guanabara, em Laranjeiras, na Zona Sul, durante manifestação na noite desta quinta-feira. A ouvidoria da unidade informou nesta sexta-feira que nove pessoas que estavam no protesto foram atendidas com ferimentos leves.

Manifestação do Dia Nacional de Lutas no Centro do RioAgência O Dia

Já Pedro Guimarães Lins Machado, de 27 anos, que também participou do ato, recebeu atendimento por volta das 21h com quadro de traumatismo crânio-encefálico. Segundo nota, Pedro está lúcido, não corre risco de morte, mas continuará no CTI por mais 24 horas em observação. Ainda não há informações sobre como a vítima acabou ferida.

Uma porta de vidro do hospital foi quebrada durante a entrada dos manifestantes, que buscavam abrigo. A ouvidoria da Casa de Saúde informou que nenhum paciente internado na unidade sofreu qualquer transtorno em função do protesto.

A Polícia Militar informou, na manhã desta sexta-feira, que 46 pessoas foram presas por atos de vandalismo durante a manifestação desta quinta. Destas, nove foram autuadas em flagrante por formação de quadrilha.

Manhã de limpeza e prejuízos

Comerciantes e agentes da Prefeitura contabilizam os prejuízos na manhã desta sexta-feira após a manifestação que terminou em confronto em frente ao Palácio Guanabara, em Laranjeiras.

Na Rua Pinheiro Machado, em frente à sede do governo, funcionários da Secretaria de Obras trabalham soldando grades que cercam canteiros e foram arrancadas durante confronto entre PMs e manifestantes.

Placas de sinalização de trânsito também acabaram quebradas. Na Rua Paissandu, caçambas de lixo foram arrancadas e queimadas por vândalos. Pedras portuguesas foram arrancadas do chão e usadas como armas. Câmeras de segurança localizadas na parte externa de edifícios acabaram depredadas.

Dona de uma banca de jornais da Rua Paissandu, Kenia Melo, de 52 anos, contabilizou prejuízo de R$ 500 nesta sexta. "Minha filha me ligou ontem à noite e disse que estavam quebrando a banca. Preferi esperar e vir pela manhã. Por sorte, a porta da banca afundou e não conseguiram saquear os produtos", afirmou a comerciante, que trabalha há 15 anos no local.

Vidro quebrado de agência bancária após protesto que terminou em confrontoSeverino Silva / Agência O Dia

Polícia usa truculência para dispersar manifestantes

A Polícia Militar, em um exercício de truculência, atirou a esmo em manifestantes que voltaram a ocupar a Rua Pinheiro Machado, em frente ao Palácio Guanabara, pedindo a renúncia do governador Sérgio Cabral. Por volta das 22h desta quinta, mais de mil pessoas retornaram à via e foram recebidas com balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio.

Em protesto, moradores de prédios vizinhos bateram panelas em janelas e a PM reagiu atirando contra os edifícios. Muitas pessoas foram presas sem saber o motivo.

Os policiais, em sua maioria do Batalhão de Choque (BPCHq), estavam com os nomes cobertos na farda ou máscaras nos rostos. A via foi desocupada às 22h40. Vários populares ficaram feridos ou passaram mal com as ações da polícia e foram socorridos pelo Corpo de Bombeiros e médicos de hospitais próximos.

Policiais em meio a chamas%2C na Rua Paissandu%2C bem próximo ao Palácio GuanabaraJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Muitas pessoas se trancaram em academias, lojas e edifícios. A Clínica Pinheiro Machado abriu a porta para abrigar manifestantes que pediram ajuda. Houve pânico, e o gás chegou a dominar o primeiro andar da unidade, obrigando quem tentou se abrigar a ocupar o segundo. O local teve ainda vidraças quebradas por balas de borracha. Isoladas lá dentro, pessoas pediram ajuda pelo celular.

Na Praça São Salvador, os PMs do Choque encurralaram manifestantes e revistaram grupos nas ruas adjacentes ao Palácio. Pedestres foram obrigados a deitar no chão. Mais tarde, um ônibus da polícia levou diversas pessoas. Inconformados, moradores dos prédios e populares tentaram intervir, pedindo pela soltura dos detidos.

A Rua Marquês de Abrantes, esquina com Paissandu, chegou a ser bloqueada por homens portando escudos. Ainda não há informações sobre o número de feridos.

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