Trabalhadores relatam drama: 'Não adianta ligar para empresa'

Muitas pessoas chegaram atrasadas ao trabalho nesta quinta. Cobradora da Viação Acari foi ferida com uma pedrada

Por O Dia

Rio - A circulação irregular de ônibus na manhã desta quinta-feira pegou vários passageiros de surpresa e provocou um caos na busca por transporte coletivo no Rio. Usuários penaram para embarcar nos poucos coletivos disponibilizados pelas empresas. Pontos de ônibus ficaram lotados e houve confusão em locais com maior concentração, como nos terminais rodoviários.

Greve dos rodoviários complica a vida dos cariocas que tentam chegar ao trabalhoOsvaldo Praddo / Agência O Dia

Em São Cristóvão, o pintor Ademir Carolino, de 55 anos, penava por quase uma hora na espera de um ônibus da linha 463 (São Cristóvão-Copacabana) para chegar ao Humaitá, na Zona Sul. Conformado com o atraso, ele lamentava o atraso na compra de material para um trabalho que realizaria ainda nesta quinta-feira.

"Não adianta ligar para a empresa que trabalho. Tenho que bater o ponto mesmo. Me comprometi a passar em uma loja para comprar o material de pintura para um serviço, passar na empresa e seguir para fazer o trabalho. Não sei o que fazer. Vou ter que aguardar o ônibus mesmo", disse conformado o profissional, um dos primeiros na fila de espera.

Ponto de ônibus lotado e poucos ônibus nas ruasFoto%3A Alessandro Costa / Agência O Dia

Quem desembarcava dos trens da SuperVia e buscava condução em ônibus para a Zona Sul também enfrentava problemas. Após uma viagem de Queimados, na Baixada Fluminense, a acompanhante Ivonete da Silva, de 40 anos, aguardava por um ônibus da linha 460 (São Cristóvão-Leblon) para chegar ao trabalho, no Leblon. Nada menos do que cinco grandes filas se formaram no ponto final para aguardar os escassos ônibus. Com a adesão de funcionários da Auto Viação Real, ônibus especiais da Viação Verdun foram disponibilizados.

"Ônibus aqui é sempre difícil. A espera e a saída costuma levar cerca de meia hora, tempo em que estou só na fila. Essa greve está refletindo no trem, que hoje veio mais cheio do que nos outros dias", disse Ivonete, às 7h45, preocupada com o atraso na chegada ao trabalho.

O garçon Francisco Fonseca, de 68 anos, já pensava em desistir de esperar pelo ônibus da mesma linha, também com a preocupação de chegar atrasado ao trabalho, no Leblon. Após uma viagem rápida de trem de Madureira a São Cristóvão, ele pensava até na opção de seguir de táxi para a Zona Sul. "Fila aqui sempre tem devido ao grande fluxo de passageiros que desembarcam dos trens e seguiam para a Zona Sul. O problema hoje não é ela, é a falta de ônibus. os poucos que param lotam e demoram a sair. Estou quase desistindo e pegando um táxi", disse o garçom.

Minutos depois, Francisco e Ivonete conseguiram embarcar, ante a empurrões e muita confusão. Passageiros furaram fila e houve protesto. mesmo lotado, outros usuários impediam a saída do coletivo tentando embarcar mesmo assim.

Clima de tensão nas garagens de ônibus 

O clima foi de tensão em muitas garagens de ônibus do município do Rio com a decretação da paralisação de 24 horas do rodoviários na capital fluminense. A Polícia Militar e seguranças à paisana de empresas reforçavam a segurança nas garagens. Uma cobradora da Viação Acari foi ferida com uma pedrada. Ela já recebeu atendimento médico na UPA de Marechal Hermes e foi liberada. 

Em Senador Vasconcelos, na Zona Oeste, porém, pelo menos 30 ônibus foram apedrejados e danificados por piqueteiros que tentaram impedir a saída dos coletivos. Muitos que começaram a circular voltaram para as empresas. Passageiros foram pegos de surpresa com a greve. Como consequência, os ônibus trafegaram lotados e estações do Metrô e trens da SuperVia circularam com a toda a frota. Os pontos de ônibus também ficaram cheiros e muitos usuários não conseguiram chegar ao trabalho. 

PM reforça policiamento nas garagens de ônibus para evitar ações de piqueteirosFoto%3A Osvaldo Praddo

A situação começou a ficar crítica por volta das 3h. Cerca de 50 rodoviários impediram a saída de ônibus da garagem da Viação Jabour, na Avenida Santa Cruz, em Senador Vasconcelos. Cerca de 21 foram apedrejados. A direção da empresa decidiu não colocar os coletivos na rua temendo mais prejuízos. Dois motoristas teriam ficado feridos. Não há informações sobre detidos.

'Achei que fosse apanhar', diz motorista que não aderiu à greve

No Engenho Novo, em uma ação ousada, cerca de oito homens armados com barras de ferro renderam o motorista da linha 232 (Lins -Praça 15), da Viação Mathias, quando o coletivo passava pela Rua Barão do Bom Retiro, por volta das 4h40. Ele foi obrigado a deixar o ônibus. Um dos criminosos assumiu a direção e atravessou o veículo, fechando as duas pistas. Duas proteções que impedem o estacionamento de veículos na calçada, instaladas na porta do prédio número 1.352, foram destruídas. O grupo fugiu em dois carros e duas motos levando a chave da ignição. Cerca de 20 passageiros estavam no ônibus. Ninguém ficou ferido.

"Só vi o grupo com barras de ferro correndo na direção do ônibus na contramão. Achei que fosse apanhar. Com certeza é algo relacionado a greve. Quem assumiu a direção sabe dirigir, é motorista de ônibus. Se fossem bandidos, traficantes, tinham queimado o ônibus e não manobrado e fechado a pista", acredita o motorista José Cláudio Daflon dos Santos, de 34 anos, nove deles na Mathias. O trânsito teve que ser desviado pelos próprios funcionários da empresa para as ruas Acaré e Abatira. PMs e funcionários da CET-Rio não foram vistos no local. A Rua Barão do Bom Retiro só foi liberada às 6h15.

Passageiros enfrentam dia de caos para chegar ao trabalho. Mais de 50 ônibus foram depredados por conta da greve dos rodoviáriosFoto%3A Osvaldo Praddo

Na garagem da Viação Alpha, também no Engenho Novo, a cerca de 700 metros do local do ataque ao ônibus da linha 232, o clima era de expectativa. Um grupo de rodoviários gritava palavras de ordem na porta da empresa, por volta das 6h. Segundo um funcionário, ônibus que tinham deixado a empresa retornavam. Um deles estava com o retrovisor quebrado De acordo com ele, a direção estava decidindo se eles voltariam a circular. Uma viatura da PM reforçava o policiamento na porta.

Já em Piedade, ônibus da Viação Verdun deixavam a garagem normalmente às 5h. Funcionários chegavam para trabalhar e não havia piquete. Seguranças à paisana acompanhavam a movimentação e não haviam PMs.

De acordo com a Rio ônibus, até o meio-dia, cerca de 325 coletivos haviam sido depredados devido à greve dos rodoviários, que começou no início desta madrugada. Manifestantes grevistas realizaram piquetes nas garagens das empresas dos coletivos, a maioria na Zona Oeste. Dentre os veículos depredados estão 60 ônibus da empresa Jabour, 15 da Real, 16 da Pavunense, 20 da Vila Real e 21 da Viação Redentor. Segundo a Rio Ônibus, apenas 30% da frota está circulando nas ruas.

Categoria quer piso salarial de R$ 2.100 e fim da dupla função

De acordo com um dos grevistas, o motorista José Ricardo de Souza, 38, da viação Translitorânea, os trabalhadores acusam o sindicato da categoria de fechar o acordo coletivo com o sindicato patronal com o percentual sem consultar a categoria. Eles exigem um piso e R$ 2.100 e tíquete alimentação de R$ 300, além de melhores condições de trabalho, como banheiros e água nos pontos finais, e o fim da dupla função de motorista/cobrador.

"Esse disparate de arrocho salarial de anos e das más condições de trabalho dos rodoviários atinge em cheio a população do Rio. Chega! É hora do poder público interferir nas empresas para melhorar algo", pregou José Ricardo. Ele e outros rodoviários se concentraram desde a noite de quarta-feira na porta da Viação Real, na Avenida Brasil, em Manguinhos, para convencer os colegas e não trabalhar. até às 5h, nenhum ônibus tinha deixado a garagem da empresa.

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