Vida de estagiário não é nada fácil

Eles ganham pouco e trabalham bastante. Muitas vezes, ultrapassam a jornada de seis horas

Por O Dia

Rio - Vida de estagiário não é nada fácil. A frase que soa como clichê é a mais pura verdade para milhares de estudantes do Rio. Neste momento em que um absurdo reajuste de 93% no salário de estagiários da Assembleia Legislativa só não se concretizou por causa da denúncia feita por O DIA — a bolsa passaria para R$ 2.860 —, a realidade da maioria dos profissionais em início de carreira ganhou notoriedade. Na vida atribulada deles, o expediente vai além da carga horária de seis horas, jornada estabelecida por lei. E o salário mal dá para custear as despesas com a universidade. 

Estudante da UFRJ%2C Gabriela de Souza ganha R%24 496 no estágio e tem que ajudar nas despesas em casaAndré Mourão / Agência O Dia


Na agenda da estudante de Conservação e Restauração da UFRJ Gabriela Lucio de Souza, de 24 anos, poucas são as horas vagas. Os fins de semana foram preenchidos há três anos pelo seu estágio na Casa de Rui Barbosa, em Botafogo. Por lá, ela dá expediente aos sábados e domingos, das 13h às 18h, e às terças, o dia inteiro. Nos outros dias, nada de folga. Para conseguir juntar uma renda extra, ela também faz iniciação científica percorrendo outras instituições para pesquisa. 

“Não tenho tempo para nada. Tem dias que minha aula começa 6h30 na universidade. Meu marido vive reclamando que não paro em casa”, contou Gabriela, que nas despesas domésticas, só consegue ajudar no pagamento do condomínio.

“Ganho R$ 496 pelo estágio e R$ 420 na iniciação, mas só de condomínio gasto R$ 500. O que sobra, e quando sobra, uso para despesas com meu curso”, completou a estudante. Nas tarefas do estágio, ela faz de tudo e garante que a ralação tem seu lado bom, pois já está pronta para o mercado de trabalho. “A minha sorte é que tenho chefes maravilhosos que me ensinam de tudo”, declarou.

Com 40 anos de idade e no último período de Administração, Tatiana Machado fez o caminho inverso. Desde os 21, trabalhava como profissional efetivada apenas pelo Ensino Médio, mas há seis meses resolveu largar tudo para ser estagiária. “É melhor a gente perder logo para ganhar depois. O mercado estava em baixa na minha antiga área”, contou. Ela dá expediente na mesma universidade em que estuda, a Estácio de Sá. “Nem preciso sair do campus”, completou. 

Denúncia do DIA derrubou salário de R$ 2,8 mil na Alerj

A repercussão sobre o aumento do salário dos estagiários da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) , denunciada pelo DIA com exclusividade, foi tanta que a própria instituição voltou atrás na semana passada e, em vez do reajuste de 93%, concedeu 20%. A bolsa que seria de R$ 2.860 ficou em R$ 1.776.

Para o estudante de história da UFRJ, Carlos José Macedo, 24, que recebe três vezes menos que os funcionários universitários da Alerj, o aumento só expõe ainda mais a desvalorização dos estagiários no Brasil. “Essa história da Alerj serviu para expor o quanto a classe é mal remunerada. Somos vistos como mão de obra barata porque fazemos a mesma função de um profissional”, opinou Carlos.

A Alerj, além de recuar no reajuste da bolsa, também decidiu modificar os critérios para o ingresso dos novos estagiários. O formato ainda está sendo definido por uma comissão de deputados.

No Rio, a média da bolsa-auxílio de um estagiário no nível superior é de R$ 1.156,34, para seis horas de trabalho, segundo pesquisa realizada no ano passado, pelo Núcleo Brasileiro de Estágios (Nube).

Últimas de Rio De Janeiro