Ex-interno da Funabem organiza bailes charme e é anfitrião de celebridades

William Vorhees organizou o mais novo evento 'charmeiro' da cidade, na semana passada, de nome 'A Justiça é o charme'

Por O Dia

Convidado pelo diretor Estêvão Ciavatta para ser um dos autores da série ‘Preamar’Maíra Coelho / Agência O Dia

Rio - Nos piores e nos melhores momentos, a vida de William Vorhees foi marcada pelo ritmo cadenciado do charme. Nascido no Morro do Alemão, quando o lugar ainda não era chamado de Complexo, foi parar na Funabem (atual Degase) aos 4 anos.

“Sempre que os meninos brigavam, um inspetor mandava tocar charme, para acalmar”, recorda. Depois que deixou de ser interno, aos 16 anos, William fez de tudo: foi o primeiro personal trainer do Brasil, roteirista de uma série premiada de TV e tornou-se anfitrião de celebridades internacionais, como o ator Will Smith e o rapper Kanye West. A tarefa mais recente o levou de volta ao começo. Foi encarregado de organizar um baile charme nas proximidades do Fórum do Rio, que atraiu uma multidão ao Centro. Desta vez, porém, o som black embalava só alegria.

O evento ‘A Justiça é o charme’, na semana passada, foi um sucesso. Num sábado em que a Av. Erasmo Braga deveria estar vazia e silenciosa, a vibração era muito diferente. Com músicas selecionadas pelo DJ Corello, uma multidão dançava no asfalto.

William, de 51 anos, recebia a todos com um largo sorriso, metido num terno colorido, de gravata borboleta, bermuda e tênis. “Acompanho Corello desde o início do movimento ‘charmeiro’, que começou no Clube Mackenzie, no Méier. Ele é o pioneiro”, elogia. O baile do Fórum tem boas chances de entrar no calendário de eventos da cidade.

Amigo de atores e empresários, William já é reconhecido como um personagem tipicamente carioca. Costuma usar sua história de superação para motivar meninos e adolescentes que têm a mesma origem carente que ele teve. Para estes, lembra dificuldades como os castigos físicos que sofria de inspetores da Funabem e o risco constante de ser agredido por um dos 600 internos. “Os meninos da favela não têm autoestima e isso é fatal”, diz ele, que até hoje faz terapia para superar os traumas de infância.

Para virar o jogo nas comunidades pobres, ele sugere a receita que deu certo para si próprio. “Uma criança com o mínimo de atenção e de autoestima vai longe. Nisso, o atletismo pode ajudar muito”.

Foi pulando e correndo, ainda na adolescência, que William descobriu que poderia deixar para trás as tristezas da infância. Ele destaca a principal lição do esporte: “No atletismo aprendemos que a competição não é contra os adversários, mas contra nossos próprios limites. Isso é muito importante.”

William cursou a faculdade de Cinema. “Passei quatro anos fazendo isso e gostei muito”Maíra Coelho / Agência O Dia

Precisou mesmo de muito gás para superar tantas dores. A principal foi a separação de Dona Madalena, sua mãe, depois de ser internado na Funabem. Ela deixava o menino sozinho em casa, quando saía para cantar à noite. Mãe solteira, era assim que conseguia dinheiro para sustentar o filho. A denúncia de um vizinho, porém, fez com que perdesse a guarda de William e ele foi internado na unidade de Quintino.

Dos 16 anos até hoje, sua vida mudou muito. A paixão pelo esporte e pela Educação Física o levou a ser o primeiro personal trainer do país. Dessa forma, fez contato com grandes empresários e celebridades da TV. Acabou se tornando roteirista da premiada série ‘Preamar’, da HBO.

Foi assim, convivendo com artistas, que foi indicado para receber Kanye West e Will Smith no Rio. Deixou o motorista do ator preocupado quando anunciou que o levaria para comer bolinho de Bacalhau no Méier. “Tem certeza?”, perguntou o funcionário. “Calma, o cara tá comigo”, respondeu. Will Smith foi ao Méier e adorou

A antiga casa do Alemão foi doada

Depois da morte recente de sua mãe, Dona Madalena, William Vorhees voltou ao Alemão para saber como estava a casinha onde passou a infância. “Encontrei ali, como inquilina, Dona Neoci. É uma mulher com história muito parecida com a da minha mãe, que criou quatro filhos sozinha”, recorda.

Dona Neoci pagava R$ 100 de aluguel e ao ver William correu para mostrar os os recibos quitados. Teve medo de ser despejada por ele.

“Olhei para ela e pensei: não posso cobrar R$ 100 de uma pessoa com tantas dificuldades, quando eu e meus amigos gastamos R$ 300 em uma noite no Baixo Gávea”, contou. Naquele momento, tomou a decisão de doar a casa para a inquilina e oficializou a situação com um documento. “Mesmo sem poder, ela ainda insistiu para me pagar”.

Baile no Centro foi o último evento de Joel Rufino

Falecido na última sexta-feira, aos 73 anos, o escritor, historiador e jornalista Joel Rufino foi um dos idealizadores do evento ‘Justiça é o charme’. Ele esteve no baile e deu todo apoio ao mestre de cerimônias e ao DJ

Em sua página no Facebook, William lembrou a ação de Joel na defesa dos negros no Brasil. “Obrigado por eu poder andar de cabeça erguida pelo Brasil e ter meu direito assegurado pela lei em muito por causa da sua luta. Obrigado pela sua presença no mundo como referência de atuação”, escreveu.

Desde fevereiro, Joel ocupava o cargo de Diretor de Comunicação e Difusão do Conhecimento do Tribunal de Justiça. Ele participou ativamente da preparação do baile e foi ao palco para falar com público.

“Fica na minha memória aquela posição ereta, aquele olhar direto dizendo no meu olhar: ‘Se orgulhe de estar aqui’”, arrematou .

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