'Recuo é um avanço. Colocar PMs em área de risco não faz sentido', diz sociólogo

Paulo Baía acredita na política de policiamento de proximidade como uma alternativa e julga correto o recuo da PM

Por O Dia

Rio - Para o sociólogo e cientista político Paulo Baía, moradores do Jacarezinho podem se sentir mais acuados com a nova organização da PM na comunidade. Ele acredita na política de policiamento de proximidade como uma alternativa e julga correto o recuo da PM frente às mortes de militares. O sociólogo Ignacio Cano, da Uerj, considera a medida positiva. Apesar disso, reforça que há risco de retaliação dos militares em razão das mortes de colegas.

“O recuo é um avanço. Colocar PMs em área de risco não faz sentido. É importante reavaliar a situação. A prioridade tem que ser, sempre, a redução de confrontos e preservação da vida de PMs e da população”, enfatizou.

Pezão deu um recado às famílias de policiais: “Cada hora que vejo uma notícia dessas é um pedaço meu que vai embora. Sinto muito. Lutei para quem matar policial ter punição maior. Isso não é normal. Também não é normal dar 111 tiros em um carro (referindo-se à morte dos jovens em Costa Barros por PMs). 

A mãe do policial morto presta continência no carrinho que leva o corpo do filhoAlexandre Brum / Agência O Dia

Alerta vermelho na pacificação

Tiroteios, atuação de bandidos e a morte de três policiais resultaram num recuo tático no plano de pacificação no Jacarezinho. PMs da UPP passaram a resguardar apenas a sede da unidade e o entorno da favela, interrompendo o patrulhamento e o trabalho de polícia de proximidade, base do programa. A comunidade está ocupada por tempo indeterminado pelo Comando de Operações Especiais (COE), que inclui o Bope. A medida pode atingir outras unidades.

A tomada da comunidade pelo COE é prevista no decreto publicado em março, que classifica UPPs em verde, laranja e vermelho, de acordo com os níveis de risco. Segundo o documento, ao atingir o estágio vermelho, a área deve ser ocupada pelas tropas do COE. Esse ano já foram mortos 13 PMs em áreas pacificadas. No total, 25 PMs foram mortos em serviço.

“Morreram policiais no Jacarezinho. A situação está muito tensa. Os soldados da UPP saíram da unidade”, comentou o governador Luiz Fernando Pezão. Ele lembra que situação semelhante já aconteceu em outras unidades, como Alemão, Manguinhos e Rocinha. “Estamos recebendo as lideranças comunitárias para ver o que está acontecendo. Se é erro nosso, vamos consertar”, disse. “Temos que fazer uma campanha grande de desarmamento”.

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, disse que o Jacarezinho está sendo alvo de ataques porque é a unidade recorde em prisões: 475.

O secretário culpou pelos ataques Marcos Vinícius da Silva, o Lambari, traficante que cumpre pena em Catanduvas (PR), um criminoso identificado como Luan Lopes da Silva, o Luanzinho, e um traficante preso em Bangu 3. Sem revelar o nome, o secretário disse que vai pedir a transferência dele para fora do Rio. Há uma semana, o soldado Rodrigo Ribeiro também foi morto por bandidos na favela. Mortos juntos no domingo, após serem atacados por traficantes, os PMs Marcus Martins e Inaldo Pereira Leão, foram enterrados no mesmo jazigo do Cemitério Jardim da Saudade. Martins levou três tiros nas costas ao socorrer Leão. Beltrame e o comandante-geral da PM, Alberto Pinheiro Neto participaram da cerimônia.

“Ele saiu falando que ia trabalhar e voltou em um caixão. A vida de policial é esta”, desabafou a mãe de Leão, Maria Pereira de Fátima. A mulher do PM disse que ele reclama das condições de trabalho. “Tem que ter mais armamento, mais policiais. Eles estão em desvantagem. Não tem nem colete. Algumas vezes meu marido comentava isso. A mortes vão continuar se nada for feito”, avisou Josiane Modesto Gonçalves.
Martins e Cintia Martins iriam se casar em janeiro. “Ele amava a farda. Parece que pressentiu. Estava tenso, reclamando das condições de serviço”, lamentou ela. O clima foi tenso ontem no Jacarezinho. A todo momento policiais recebiam mensagens pelo rádio avisando de possíveis ataques e pediam atenção.

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