Jaguar: Vagas memórias

Agora o poeta virou bronze, sem perceber que o não menos brônzeo Caymmi caminha mas nunca chegará até ele

Por O Dia

Rio - Tão vagas quanto as estrelas da Ursa, de Leopardi. Acho que o ano era 1952. De segunda a sexta, eu pegava o lotação da uma da tarde (1) que saía do Posto Seis. Trabalhava das três às oito na Seção de Telegramas do Banco do Brasil na Primeiro de Março (onde hoje é o CCBB).

Eu sentava no banco da frente do lotação, ao lado do motorista. E não precisava nem olhar: sabia que no último banco, na janela da direita (lado do mar), lá estava ele, Carlos Drummond de Andrade, vindo do ponto inicial, no Posto Seis. Parecia uma faca com óculos. Ele ia para seu trabalho no prédio do Ministério da Educação, obra de Lúcio Costa, tão polêmica quanto seu poema da pedra no meio do caminho (2).

Mas só veríamos o mar (de perto, ainda não havia o Aterro) quando o lotação chegasse a Botafogo. Até lá, o trajeto era pela Avenida Copacabana: tínhamos que nos contentar com as vitrines das lojas e os letreiros dos cinemas — o Metro, hoje apenas um retrato na parede do MIS, e o Roxy (3), com seu glamour dos anos 40.

Agora o poeta virou bronze, sem perceber que o não menos brônzeo Caymmi caminha mas nunca chegará até ele, sentado no seu banco no Posto Seis, de costas para o mar. E lá ficará, condenado a ver os carros que desembocam na Avenida Atlântica, vindos da Francisco Otaviano. Até que as águas do mar cubram todo o pecaminoso bairro, no dia em que se cumprir a profecia de Rubem Braga em ‘Ai de ti, Copacabana’.

Naquela época, eu tinha 21 anos, e ele, 51, a idade de meu pai, que também nasceu em 1902. Era um dos cinco poetas que mais relia (4) — e o único brasileiro. Como você já deve ter notado, eu era um moleque pra lá de pedante.

lll

(1) Também não me lembro do número da linha do lotação; quem nasceu para Jaguar jamais chegará a Pedro Nava.

(2) Trabalhava no gabinete de ministro, Gustavo Capanema, que acabou dando nome ao prédio.

(3) Ainda resiste, impávido, na esquina da Avenida Copacabana com Bolívar, atrelado a um nome que parece marca de remédio para azia: Kinoplex.

(4) Aprendi nos suplementos literários que um intelectual que se preza nunca lê um livro, sempre relê. 

Últimas de Opinião