Marcus Tavares: Muito mais do que uma mediação de conteúdos

A aula de qualquer professor, mesmo que nas entrelinhas, traz à tona diálogo sobre o cotidiano e o contexto em que se vive

Por O Dia

Rio - Qual o valor de uma aula? Talvez você não tenha parado para pensar nisso, mas está aí uma boa reflexão. Certamente, você pensa que o valor está ligado à capacidade intelectual do professor. Correto. E se faz necessário destacar que tal capacidade é resultado de anos de estudo e de prática, dentro e fora de sala de aula. De um sem-número de livros, trabalhos, experiências e, é claro, de aulas que vão sendo vivenciadas, criando um estofo e qualidade profissional. De certa forma, isso é relativamente fácil de ser analisado, interpretado e, matematicamente, traduzido numa remuneração condizente, embora nem sempre aconteça.

Porém, há um ingrediente que, infelizmente, poucas vezes é acrescido a esta soma. Vou chamá-lo de ‘trocas’, o que poderia também ser substituído por ‘diálogos’ ou ‘vivências’. A aula de qualquer professor, mesmo que nas entrelinhas, traz à tona um diálogo sobre o cotidiano e o contexto em que se vive. Possibilita trocas. Expõe visões de mundo e opiniões quase sempre contraditórias, promovendo reflexões sobre os mais variados temas, enfatizando quase sempre as questões éticas e morais. Discutem-se direitos e deveres.

Discute-se a dimensão humana. Inevitavelmente, ser professor vai além da transmissão — ou da mediação — dos conteúdos. Ele não aborda apenas o que está descrito no currículo. Não há como. O que se verifica, na prática, é a condução de um currículo oculto que acontece a cada novo encontro, que provoca e instiga.

Na vida agitada dos dias de hoje, na qual o diálogo pouco existe, encontros entre professores e estudantes assumem e ganham status privilegiado de discussões que exige responsabilidade, atenção e coerência, redobrada, por parte dos profissionais. Acredite, dar aula é muito mais complexo do que se possa imaginar.

O fato é que ainda poucas são as pessoas e instituições que, na prática, valorizam e reconhecem este encontro. Esta questão, posta há muitas décadas, ainda carece, em pleno século 21, de uma mobilização e principalmente reconhecimento tanto por parte da sociedade quanto do Estado. Vide os três meses de greve dos profissionais de ensino do estado. Três meses de intensos debates e ocupações, mas sem nenhuma grande reflexão, por parte dos cidadãos e do Estado, da importância e do sentido da Educação.

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