Por thiago.antunes
Rio - Parece que estamos atravessando uma crise institucional séria. É certamente o momento político mais delicado desde o golpe anterior, em 1964, que nos brindou com uma ditadura militar. Para os que desejam essa experiência novamente, e não são poucos, sugiro a leitura de ‘Jango e eu’, do João Vicente Goulart, filho do presidente deposto.
João Vicente tinha 7 anos em 1964. Cresceu vivendo entre Uruguai e Argentina, sempre sob o peso do exílio. É uma vivência rara e que, por isso mesmo, merece uma conferida. Suas memórias são uma referência de um período negro da América Latina e, claro, de uma família que participou ativamente da História do país. E servem de termômetro para o que está acontecendo hoje. Um alerta.
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Registre-se, aliás, que a última terça-feira marcou os 40 anos da morte de Jango, vítima de complicações cardíacas — embora existam suspeitas de que tenha morrido envenenado. A respeito disso, vale conferir o documentário ‘Dossiê Jango’, de 2013, do Paulo Henrique Fontenelle. Intrigante.
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Uma segunda sugestão para o fim de semana é ‘Jantar secreto’, do Raphael Montes. Há muito tempo que eu queria entender o oba-oba a respeito dele, incluindo livros traduzidos para 13 países, milhares de leitores etc e tal. Ficava ainda mais intrigado porque o sujeito é novinho (hoje tem 26 anos), o que me parecia, sobretudo, uma ‘jogada de marketing’.
Mas eu estava redondamente enganado. E fico feliz dizendo isso.  Raphael Montes é bom mesmo. ‘Jantar secreto’ é um policial de primeira linha. E carioquíssimo. Violento, sanguinolento, cínico, é um livro para quem tem estômago forte e sabe lidar com humor negro. Os personagens são reais — fiquei com a impressão de que conheço alguns deles. É tudo bem contemporâneo. E pior: nada do que está ali é implausível.
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Como sabemos, afinal, a realidade brasileira vive suplantando as mais delirantes ficções.
O enredo? Muito resumidamente, digamos que trata de cinco amigos que, para escapar de dívidas pesadas, começam a promover jantares muito esquisitos mesmo, sempre à base de carne humana. O menu e o serviço requintados fazem bastante sucesso, e eles ficam ricos. Difícil é conseguir a matéria-prima. Ou não? Aí é que está o busílis.
Contar mais do que isso estragaria as boas surpresas da história. Não é só com o enredo que Raphael nos ganha, mas também com o ritmo, as críticas sociais, as caricaturas bem sacadas, o final desbundante, e até o uso equilibrado dos clichês típicos do gênero.
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Nelson Vasconcelos é jornalista