João Batista Damasceno: Vendilhões e entreguistas

Os interesses que se articularam em 1964 e que aprofundaram o golpe a partir de 1969 não foram desarticulados com a redemocratização

Por O Dia

Rio - Torturas, esquartejamentos, estupros e roubos são apontados como as piores ocorrências institucionalizadas na ditadura empresarial-militar. Mas mesmo sem elas o regime teria sido deplorável. A concentração de renda e o êxodo rural formataram as condições nas quais vivemos.

Até a parcela do empresariado nacional não afinada com o regime sucumbiu. A extinção da Panair do Brasil para favorecer a Varig, com o apoio do Judiciário, nos ajuda a compreender o que foi feito. No plano educacional, a reforma feita pelo regime propiciou a formação que temos, gerando uma massa acrítica incapaz de compreender a própria miséria existencial na qual está inserida.

Os interesses que se articularam em 1964 e que aprofundaram o golpe a partir de 1969 não foram desarticulados com a redemocratização. Nesta semana, encontro patrocinado pelo investidor Jorge Paulo Lemann em Nova York contou com a presença do juiz Sergio Moro. Tratou-se de um evento para ajudar a “vender o Brasil no exterior”, termo que os vendilhões usam elogiosamente para o que fazem.

Na década de 70, Geisel visitou a Alemanha, e as publicações europeias estamparam, em matérias pagas, fotos da musa brasileira Rose Di Primo. O general-presidente, filho de pastor alemão, censurava no Brasil, em nome da moral, filmes e publicações. Mas externamente vendia o país como paraíso para o turismo sexual.

Hoje, o que está à venda são as riquezas nacionais, a começar pelo petróleo e o nióbio, e o futuro do povo brasileiro. O modelo educacional que se reimplanta é o tecnicista que retira a capacidade de pensamento crítico e reflexão.

Sexta-feira rememoraremos o 20º aniversário da morte de Darcy Ribeiro, que dedicou a vida à educação e que acreditava em nossa capacidade de nos construirmos como nação soberana e com igualdade na apropriação dos bens que nos são comuns.

É emblemático que neste momento a nomeação de Moreira Franco para ministro de Estado esteja em discussão. Afinal, foi ele que, eleito em 1986 no Rio, pôs fim aos Cieps e restabeleceu a truculência na segurança pública que nos chantageia e nos faz reféns. Moreira é o melhor exemplar de um político sem voto e de uma classe dominante estéril e colonizada que quer transformar o povo em estrangeiro no seu próprio país.

João Batista Damasceno é doutor em Ciência Política e juiz de Direito

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