Brizola Neto: Escravidão na barganha

Inacreditável que, há menos de cinco anos, éramos reconhecidos pela OIT como um dos países que mais avançavam no combate ao trabalho escravo

Por O Dia

Rio - O Brasil, último país do continente americano a abolir a escravidão, revelou mais uma vez que a sua herança mais vergonhosa continua a permear o ideário da elite brasileira. Vem expressa nas suas representações no Congresso Nacional e também no cambaleante governo Temer, que, em nome de sua própria salvação, frente as denúncias do Ministério Público Federal, negocia verbas do orçamento e privilégios legislativos em troca de votos no Plenário.

A recente Portaria 1.129/2017, do MTE, que desmonta as ações e afrouxa a legislação que combate o trabalho escravo no Brasil, é um retrocesso brutal na história de um país que tenta superar há mais de um século a chaga da escravidão. Fator determinante na estratificação social e causa maior da desigualdade. A reivindicação dos velhos ruralistas, a UDR, como diria meu avô, Leonel Brizola, prontamente atendida pelo atual Ministro do Trabalho para salvar seu chefe no julgamento do Congresso, praticamente aboliu o combate ao trabalho escravo no Brasil.

Inacreditável que, há menos de cinco anos, éramos reconhecidos pela OIT como um dos países que mais avançavam no combate ao trabalho escravo. As ações do grupo móvel e o aperfeiçoamento da legislação eram reconhecidos internacionalmente e levava a velha elite escravocrata ao desespero.

Eu me recordo de uma reunião do colégio de líderes da Câmara dos Deputados, como líder do PDT indiquei para que fosse pautada a PEC do Combate ao Trabalho Escravo, que previa a desapropriação das terras onde fossem constatadas pelos órgãos de fiscalização a prática de trabalho análogo à escravidão. Nem terminei de fazer o pleito do meu partido e fui interrompido por um furioso líder ligado à bancada ruralista, que aos berros vociferava que a matéria não poderia ser pautada, que seria melhor a pena de morte à desapropriação.

Além disso, as inúmeras ações do grupo móvel que reunia auditores do trabalho e procuradores do MPFT, amplamente divulgadas na mídia nacional, atingiram figurões da política e empresas multinacionais em ações no campo e na cidade.

Tudo isso agora acabado por uma portaria que barganha vergonhosamente a dignidade dos trabalhadores brasileiros em troca de sustentação no Congresso Nacional e na podre elite brasileira.

Brizola Neto é ex-ministro do Trabalho

Últimas de Opinião