Universitário temia pela vida e pediu ajuda à família para deixar alojamento

Diego já havia sido agredido por ser gay na cidade onde morava no Pará e veio para o Rio para fugir do preconceito

Por O Dia

Diego era estudante de Letras e foi encontrado morto na UFRJ%2C no Fundão, com marcas de agressão na cabeçaReprodução Facebook

Rio - O universitário Diego Vieira Machado, de 30 anos, assassinado no último sábado dentro do campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), no Fundão, temia ser morto e planejava se mudar do alojamento por ter recebido ameaças por ser gay. A revelação foi feita pelo seu irmão, Maycon Machado.

"Ele não tinha medo de dar as suas opiniões. Batia de frente, argumentava. Sofria bullying desde a infância por ser gay, por ter cabelo grande, por ter um estilo diferente", contou. "Mas agora a violência parecia real e ele ligou para minha tia para pedir dinheiro e poder sair do alojamento." A ligação foi feita há 10 dias, mas a família retornou dias depois e não conseguiu mais falar com Diego. 

A família é de Belém, no Pará, e não via o rapaz desde 2013, pois ele não tinha dinheiro para voltar e fazer uma visita. Ele deixou a cidade em que morava já sendo vítima de homofobia: foi agredido e teve o cabelo cortado por dois homens. Além de Maycon, Diego tinha mais uma irmã de 23 anos e um irmão de 18 anos. A vinda para o Rio era também uma fuga do preconceito da cidade onde morava. "Ele veio para o Rio porque onde morava que era uma cidade muito atrasada, achou que no Rio, por ser mais evoluída, em tese menos preconceituosa, não sofreria." 

Diego morava no Rio desde 2011 e começou o curso de Letras na UFRJ em 2012. Entrou pelo sistema de cotas. "Ele tinha o sonho de morar no Rio de Janeiro. Sempre foi estudioso e a nota no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) seria suficiente para entrar em faculdades de outros Estados, mas queria o Rio", comentou o irmão. Praticante de artes marciais, ele praticava as lutas para se defender das agressões. "Foi mais de uma pessoa que fez isso, porque um sozinho não conseguiria. Ele era alto e forte", contou o irmão.

O universitário temia a violência no campus e pediu ajuda à família para se mudarReprodução Facebook

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No dia 7 de abril, em seu perfil no Facebook, ele denunciado o caso de um rapaz violentado por seguranças que trabalhavam nas obras de construção de um campo de rúgbi, dentro do campus, que servirá para treinamento de atletas da modalidade para a Olimpíada.

Segundo a postagem de Diego, a vítima era gay e foi violentado com um cabo de vassoura. "Nossa segurança interna não registrou a ocorrência. E usaram desculpas do tipo 'Mas o que você estava fazendo aí?'", escreveu.

Em abril%2C Diego postou em seu Facebook denúncia de um jovem que seria gay dentro do campus. 'Violentaram e torturaram um rapaz%2C o deixando nu e humilhado'%2C escreveuReprodução Facebook

"Ele nunca escondeu que era gay, ele sempre lutou contra as injustiças, principalmente contra a discriminação dos gays", disse Maycon. Ele contou que mãe deles está muito abalada, em estado de choque, e a base de acalmantes.

O traslado do corpo para o Pará está sendo tratado por amigas da universidade com apoio da reitoria. O enterro será no Estado em que ele nasceu. "Não conseguimos entender. Ele não fazia mal a ninguém", desabafou Maycon.

A Secretaria de Estado de Assistência Social e Direitos Humanos disse que acompanha de perto as investigações sobre a morte do estudante e recomendou à Superintendência de Direitos Individuais, Coletivos e Difusos e à Subsecretaria de Direitos Humanos o empenho no atendimento dos amigos e parentes do aluno da UFRJ.

"Se confirmar que se trata de um crime de homofobia será a confirmação de que vivemos um período de retrocesso na garantia dos direitos civis da população LGBT. Somente no mês de junho foram sete assassinatos contra esta população e, alguns, com viés de homofobia. É preciso trabalhar intensamente pelo fim de qualquer tipo de preconceito no estado do Rio de Janeiro, seja por credo, cor ou orientação sexual", destacou o secretário da pasta, Paulo Melo.

Diego deixou a cidade onde morava no Pará para estudar no Rio e fugir do preconceitoReprodução Facebook


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