Mais sofrimento ao enterrar parentes

Famílias demoram até quatro dias para conseguir sepultamentos por falta de vagas em cemitérios

Por O Dia

Rio - A falta de vagas nos cemitérios municipais tem sido mais um motivo de sofrimento para as famílias que perderam seus entes queridos. Um decreto da prefeitura (Nº 39094 de 12/08/2014), determina que o sepultamento deve ocorrer dentro das 24 horas seguintes ao falecimento, salvo se o corpo estiver embalsamado ou por expressa determinação judicial ou policial. Entretanto, há casos em que o enterro acontece quatro dias após a morte.

“Meu tio morreu no dia 2 dejaneiro, mas não tinha vaga em nenhum cemitério. A recomendação era esperar exumar um cadáver para abrir espaço para outro”, contou a executiva de contas Fernanda Nascimento, cujo tio, Nilson Messias de Oliveira, morreu de enfarte fulminante aos 59 anos, em Pedra de Guaratiba. O corpo foi sepultado somente no dia 6. “O cadáver do meu tio ficou esse tempo todo no IML de Campo Grande”, reclamou.

Atualmente existem duas concessionárias administrando os cemitérios públicos do Rio: a Rio Pax e a Reviver. Segundo o presidente do Sindicato das Funerárias, Leonardo Resende Esteves, elas criaram um sistema de oferta on line de vagas. Entretanto, de acordo com Esteves, o sistema é difícil.

Orlando pagou seguro%2C mas teve que viver a agonia de esperar 97 horas para sepultar o corpo da mulher. Só conseguiu com liminar da JustiçaDaniel Castelo Branco / Agência O Dia

“Abre duas janelas, de 9h às 10h, e de 15h às 16h. A gente tem que ficar clicando na tela, tem que inserir a declaração de óbito, selecionar um cemitério e esperar que uma vaga seja lançada nesse cemitério. Você fica disputando com outras empresas quem digita mais rápido, e se demorar mais que o concorrente perde a vaga”, reclama.

“Até apelidamos o sistema de qpp — quem pega primeiro. Não é transparente. Não sabemos quantas vagas são”, afirma Leonardo Martins, da funerária Real Pax. Ralph Santana, da funerária Vida Nova, diz que, na maioria das vezes, não consegue enterrar com menos de 48 horas após a morte.

Reserva

Esteves acusa, ainda, as concessionárias de reservarem as vagas para suas próprias funerárias. “Isso foi errado no processo de licitação. A empresa deveria somente administrar o cemitério, como é em Brasília. Hoje existe retenção de vagas. Não dá para se beneficiar em cima de uma família que acabou de sofrer uma perda. A Rio Pax e a Reviver ficam priorizando os casos que eles têm”.

Por e-mail, as concessionárias se defenderam. “Não há prioridade para sepultamentos das funerárias das concessionárias uma vez que as vagas são acessadas remotamente. Dados da Prefeitura do Rio, mostram que 20% dos enterros são feitos por funerárias ligadas às concessionárias que administram os cemitérios, enquanto 80% são realizados pelas demais, ligadas ao sindicato”.

O secretário de Conservação e Meio Ambiente, Rubens Teixeira, disse que para evitar falhas desta natureza, que ocorrem há muito tempo, está sendo implantada uma nova gestão na Coordenadoria de Controle de Cemitérios e Serviços Funerários (CCF), com Diógenes Dantas Filho, o coronel do Exército, a frente do órgão.

Família pagou por jazigo, mas corpo foi para gaveta

Foram 97 horas desde o falecimento da analista contábil Isabel Alves Lourenço, 67 anos, até o sepultamento no Cemitério São Francisco Xavier. Isabel morreu de insuficiência renal aguda no domingo dia 8, no Hospital Silvestre, no Cosme Velho. Há mais de 10 anos ela pagava o seguro do Itaú Vida Premiada, que garantia serviços fúnebres.

A seguradora encaminhou o serviço à Funerária Maracanã. A família foi informada de que o corpo seguiria para um laboratório em Nova Iguaçu para depois ser levado à sede da funerária, no Pechincha. Mas, 48 horas se passaram sem que o viúvo e os dois filhos tivessem acesso ao corpo e à previsão de enterro. Casado com Isabel por 43 anos, o aposentado Orlando de Aguiar, de 66 anos, chegou a ir ao Cemitério de Irajá, administrado pela RioPax, onde a família tem um jazigo.

“Estavam oferecendo sepultamento em 12 vezes, mas não tinha vaga para a Isabel”, lembrou. Ele teve que recorrer à Justiça para enterrar a esposa. Através de uma liminar contra a funerária, conseguiu liberar o corpo às 22h do dia 11. Isabel foi enterrada no dia seguinte, em uma gaveta. “Tinha contratado um jazigo. Mas, para mim já não importava mais”, contou Aguiar. O Itaú foi procurado, mas não respondeu até o fechamento da matéria.

Reportagem do repórter Wilson Aquino com a estagiária Alessandra Monnerat

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